“Façam Plutão voltar a ser planeta”: chefe da NASA reacende debate que divide astrônomos

Declaração do chefe da NASA reacende controvérsia científica encerrada em 2006, divide astrônomos e surge em meio a críticas sobre cortes bilionários no financiamento da pesquisa espacial norte-americana.

Plutão se tornará um planeta novamente? Crédito: NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Southwest Research Institute
Plutão se tornará um planeta novamente? Crédito: NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Southwest Research Institute

A discussão sobre o status de Plutão voltou ao centro da astronomia internacional após declarações do administrador da NASA, Jared Isaacman, durante uma audiência no Senado dos Estados Unidos. O dirigente afirmou apoiar o retorno de Plutão à categoria de planeta e disse que a agência estaria preparando estudos para reabrir o debate científico.

Durante décadas, gerações aprenderam que o Sistema Solar possuía nove planetas. Essa visão mudou em 2006, quando a União Astronômica Internacional (IAU) decidiu retirar Plutão da lista oficial, reduzindo o número para oito. A decisão provocou controvérsia entre cientistas e até hoje desperta forte reação do público.

Ao responder a uma pergunta de parlamentares norte-americanos, Isaacman declarou estar “firmemente do lado” daqueles que defendem a restauração do status planetário de Plutão. Segundo ele, a NASA trabalha em documentos destinados a “escalar a discussão dentro da comunidade científica”. A agência, no entanto, não esclareceu quais estudos estão sendo preparados.

Reação imediata entre pesquisadores

As declarações do chefe da NASA repercutiram rapidamente entre astrônomos e cientistas planetários. Parte da comunidade científica considera legítima a reabertura da discussão, enquanto outros avaliam que o tema desvia a atenção de questões mais importantes da pesquisa espacial.

Cientistas buscam reverter o rebaixamento de Plutão com base em sua complexidade geofísica. Crédito: Ilustração/Olhar Digital
Cientistas buscam reverter o rebaixamento de Plutão com base em sua complexidade geofísica. Crédito: Ilustração/Olhar Digital

A pesquisadora Amanda Hendrix, do Planetary Science Institute, no Colorado, afirmou que discutir se Plutão deve ou não ser chamado de planeta “distrai dos verdadeiros problemas científicos”. Para ela, o foco deveria estar na compreensão das características e da evolução desses corpos celestes, independentemente da classificação adotada.

A fala de Isaacman também gerou desconforto porque ocorreu logo após ele defender a proposta do governo dos Estados Unidos de reduzir drasticamente o orçamento científico da NASA. A medida prevê cortes significativos em programas de pesquisa e vem sendo alvo de críticas de pesquisadores, que temem impactos severos na ciência espacial norte-americana.

A cientista planetária Adeene Denton comentou nas redes sociais que seria contraditório “transformar Plutão em planeta novamente enquanto se destroem as carreiras de quem o estuda”. A declaração sintetizou o sentimento de muitos especialistas preocupados com o futuro do financiamento científico.

Debate permanece aberto desde 2006

Entre os defensores da revisão da decisão está o astrobiólogo David Grinspoon, que já havia se posicionado contra a reclassificação de Plutão em 2006. Segundo ele, ainda existe “um debate genuíno” sobre o tema e seria válido reabrir a discussão.

Apesar disso, Grinspoon considera problemático que a NASA tente liderar esse processo. Para o pesquisador, a decisão sobre o que pode ou não ser considerado planeta deve continuar sendo responsabilidade da União Astronômica Internacional, entidade reconhecida mundialmente por definir a terminologia oficial da astronomia.

O cientista argumenta que uma mudança promovida unilateralmente pela NASA poderia gerar ainda mais confusão dentro da comunidade científica internacional. “Mesmo desejando uma definição melhor e mais amplamente aceita, a NASA não pode simplesmente declarar isso”, afirmou.

A origem da controvérsia remonta às descobertas feitas no início dos anos 2000. Astrônomos identificaram diversos objetos semelhantes a Plutão nas regiões mais distantes do Sistema Solar. Entre eles estava Éris, descoberto em 2004 e considerado até mais massivo que Plutão. A descoberta levantou uma questão inevitável: se Plutão era planeta, esses novos corpos também deveriam ser classificados da mesma forma.

Por que Plutão perdeu o título de planeta

Diante do impasse, a União Astronômica Internacional definiu em 2006 três critérios para que um corpo celeste seja considerado planeta. O objeto precisa ter forma arredondada pela própria gravidade, orbitar o Sol e “limpar” a vizinhança de sua órbita, eliminando detritos e corpos menores ao redor.

Plutão atende aos dois primeiros requisitos, mas falha no terceiro. Sua órbita compartilha espaço com diversos objetos da região conhecida como Cinturão de Kuiper, uma área repleta de corpos gelados além de Netuno. Por isso, passou a integrar uma nova categoria: a de “planeta anão”.

Mesmo após quase duas décadas, a decisão continua longe de ser consenso. Para muitos pesquisadores, o caso de Plutão simboliza não apenas uma disputa sobre definições astronômicas, mas também um debate mais amplo sobre como a ciência evolui diante de novas descobertas.

Referências da notícia

Revista Nature. ‘Make Pluto a planet again’? NASA chief revives debate that divides astronomers. 2026

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