Estudo aponta possíveis sinais de uma galáxia extinta dentro da Via Láctea
Evidências indicam que estrelas antigas vieram de uma galáxia anã que foi capturada pela Via Láctea.

Em ambientes dominados por múltiplas galáxias, interações gravitacionais e fusões são processos comuns ao longo da evolução cósmica. Galáxias mais massivas tendem a capturar sistemas menores, como galáxias anãs, que caem em seu potencial gravitacional. Durante esse processo, forças de maré fragmentam o sistema menor, dispersando suas estrelas ao longo de correntes estelares. Essas estruturas permanecem como assinaturas dinâmicas e químicas no halo e no disco da galáxia hospedeira.
A Via Láctea já passou por diversas interações ao longo de sua história evolutiva. Entre os exemplos mais conhecidos estão as Nuvens de Magalhães, que orbitam e interagem gravitacionalmente com a galáxia, gerando perturbações no disco. No futuro, está prevista a fusão com a Galáxia de Andrômeda, que resultará na formação de uma galáxia elíptica massiva. Esse evento ocorrerá em bilhões de anos e representa um estágio avançado da evolução galáctica.
Recentemente, um novo estudo mostrou novas evidências que sugerem que a Via Láctea pode ter engolido uma galáxia anã, chamada de Loki, cujos remanescentes estelares ainda são observáveis hoje. As estrelas associadas apresentam características químicas e dinâmicas distintas das formadas na Via Láctea. Muitas delas ocupam órbitas achatadas próximas ao plano galáctico, indicando um processo de redistribuição após a fusão. A análise desse grupo reforça a ideia de que parte das estrelas próximas pode ter origem extragaláctica.
Interações galácticas
Interações galácticas são governadas pela gravidade e ocorrem quando galáxias se aproximam o suficiente para influenciar mutuamente suas estruturas. Durante esses encontros, forças de maré redistribuem estrelas, gás e matéria escura, formando caudas de maré e correntes estelares. A compressão do gás pode desencadear surtos de formação estelar e até alimentar buracos negros supermassivos no centro.
A Via Láctea apresenta evidências de interações passadas e atuais, especialmente com as Nuvens de Magalhães, que perturbam seu halo e disco. No futuro, a interação que irá afetar mais a estrutura da nossa Galáxia será com a galáxia de Andrômeda. Esse encontro resultará em uma fusão galáctica em bilhões de anos, com redistribuição de estrelas e gás em grande escala. O sistema final deverá evoluir para uma galáxia elíptica massiva.
Estrelas que não podem ser explicadas
Em Astronomia, elementos mais pesados que hidrogênio e hélio são chamados de “metais”, e estrelas pobres nesses elementos são consideradas relíquias do Universo jovem. Essas estrelas de baixa metalicidade se formaram antes que gerações de supernovas enriquecessem o meio interestelar com elementos pesados. Por isso, preservam assinaturas químicas das primeiras fases de formação estelar.
Modelos de formação da Via Láctea indicam que estrelas antigas e pobres em metais deveriam estar predominantemente no halo galáctico. Contudo, observações mostram que uma fração dessas estrelas se encontra em órbitas próximas ao plano galáctico, onde domina o disco. A presença dessas estrelas em regiões internas sugere processos dinâmicos adicionais, como migração radial ou fusões passadas com galáxias anãs.
A galáxia perdida
Para resolver esse problema, um grupo de astrônomos estudou cerca de 20 estrelas com essas propriedades. Com a análise, eles concluíram que é possível que a Via Láctea possa ter incorporado no passado uma galáxia anã, apelidada de “Loki”. Os pesquisadores analisaram um conjunto de estrelas próximas ao Sistema Solar com órbitas excêntricas e confinadas ao plano galáctico. Embora pareçam semelhantes a estrelas pobres em metais do halo, essas estrelas exibem padrões químicos parecidos entre si.

Essa homogeneidade sugere que não pertencem a uma população aleatória do halo galáctico. Em vez disso, indicam uma origem em um mesmo ambiente. Modelos dinâmicos indicam que uma galáxia anã poderia explicar a distribuição orbital e química observada. Durante a fase inicial de formação da Via Láctea, a captura de um sistema desse tipo poderia dispersar suas estrelas em órbitas tanto prógradas quanto retrógradas próximas ao plano.
Novas análises
Apesar das evidências iniciais, ainda é cedo afirmar que a Via Láctea incorporou uma galáxia anã como a galáxia hipotética “Loki”. A principal limitação está em poucas estrelas que foram analisadas. Amostras pequenas são mais suscetíveis a vieses observacionais e flutuações estatísticas. Embora os padrões químicos e dinâmicos observados já indiquem uma direção, eles ainda não constituem evidência robusta por si sós. Além disso, populações estelares do halo podem apresentar subestruturas.
Para consolidar a existência de uma galáxia progenitora como “Loki”, é necessário expandir o número de estrelas analisadas. Novos levantamentos espectroscópicos e astrométricos podem aumentar a amostra e permitir testes mais rigorosos. A identificação de um grupo maior com assinaturas químicas consistentes reforçaria a hipótese de origem comum. Além disso, a análise de órbitas em grande escala ajudaria a mapear a distribuição dinâmica dessa possível população.
Referência da notícia
Sestito et al. 2026 An ancient system hidden in the Galactic plane? Monthly Notices of the Royal Astronomical Society
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