Terremoto de 1980: o mais destrutivo dos últimos 200 anos em Portugal

A 1 de janeiro de 1980, dia de Ano Novo, um violento terremoto atingiu as ilhas do Arquipélago dos Açores. Considerado um dos maiores sismos a nível nacional, deixou um rasto de destruição e de vítimas, que jamais serão esquecidos.

João Tomás João Tomás Tiago Robles 15 Jan. 2020 - 18:31 UTC
Sismo de oitenta na Ilha Terceira, Açores
Ainda são visíveis na Ilha Terceira algumas das consequências do "sismo d'oitenta".

Na tarde do primeiro dia do ano de 1980, um violento terremoto de magnitude 7,2 na Escala de Richter sacudiu as ilhas açorianas, principalmente as do Grupo Central. As ilhas, já habituadas a abalos diários por se localizarem no encontro de três placas tectônicas (africana, eurasiática e norte americana), enfrentaram a súbita liberação de energia da falha de Faial. O epicentro, localizado no oceano entre as ilhas da Terceira, de São Jorge e da Graciosa, a apenas 35 quilômetros de Angra do Heroísmo e a apenas 10 quilômetros de profundidade, potenciaram a intensidade do tremor.

Os efeitos foram desastrosos: 73 vítimas mortais, mais de 400 feridos e mais de 20 mil desabrigados, n de um total de 86 mil habitantes distribuídos pela Terceira, São Jorge e Graciosa. A força do abalo destruiu casas, edifícios públicos e algumas igrejas construídas no séc. XIX. Cerca de 57% das habitações nas três ilhas foram afetadas, sendo que um quinto delas ficaram completamente destruídas e mais de 10 mil ficaram severamente danificadas. Foi um evento de dimensão muito superior àqueles que Portugal está habituado e preparado.

A cidade mais afetada por este sismo foi Angra do Heroísmo, que ficou praticamente em ruínas. A maioria das infraestruturas da cidade colapsaram, ficando com a aparência de uma cidade bombardeada. O sismo teve duração estimada de 20 a 30 segundos com ocorrência de tsunamis de pequenas dimensões. Pequenos tremores ocorreram por três dias. Foi o terremoto mais destrutivo dos últimos 200 anos em Portugal.

A reconstrução levou meses. O inverno chuvoso ditou uma longa estadia em tendas ou em estruturas pré-fabricadas, onde as famílias se amontoavam. A Base das Lages albergou 150 famílias, depois do Governo Português ter pedido ajuda às forças norte americanas lá estabelecidas. O fato de o arquipélago se ter tornado autônomo há relativamente pouco tempo também gerou alguma confusão quanto à atribuição de poderes durante a reconstrução.

Estudos posteriores a este evento, demonstraram que o nível de destruição estava diretamente relacionado com os locais onde as habitações estavam construídas (em solos instáveis), bem como à fraca qualidade das construções, que em momento algum tinha sido detectada pelas entidades fiscalizadoras.

A evolução da Sismologia nos Açores

Este sismo, apesar do elevado número de vítimas mortais e do nível de destruição, foi um ponto de virada na consciencialização para a sismologia nos Açores. Por um lado, permitiu que se investisse numa verdadeira rede de estações sismográficas. Até 1980 existiam apenas três em todo o Arquipélago: em Ponta Delgada, em Angra do Heroísmo e na Horta.

No pós-sismo, o Laboratório de Geociência e Tecnologia dos Açores instalou 19 novas instalações sismográficas, que permitem recolher dados de forma muito mais completa. Por outro lado, as empresas ligadas à construção civil começaram a compreender a necessidade de investir em construções antissísmicas que mitigam o risco de ruína de infraestruturas e consequentemente o risco de vítimas mortais.

De salientar que os Açores registam diariamente forte atividade sísmica, sendo que a falha do Faial, onde se situou o epicentro deste sismo, foi responsável pelos mais destrutivos do último século. Por exemplo, em 1998 registaram-se 9 mortos, mais de 100 feridos e cerca de 70% de todas as habitações no Faial foram completamente destruídas.

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