São Paulo tem média de 1 morte a cada 3 dias ligada às condições meteorológicas no período chuvoso

Entre 2022 e 2026, São Paulo registrou 197 mortes no período chuvoso, o que revela falhas na prevenção e adaptação da cidade frente à crise climática.

Áreas urbanas são mais vulneráveis aos impactos das chuvas, sendo necessário a tomada de medidas de adaptação baseadas na natureza. Na imagem, a Zona leste de São Paulo (SP), em 2023. Créditos: Reprocução/Estadão.
Áreas urbanas são mais vulneráveis aos impactos das chuvas, sendo necessário a tomada de medidas de adaptação baseadas na natureza. Na imagem, a Zona leste de São Paulo (SP), em 2023. Créditos: Reprocução/Estadão.

Um número alarmante divulgado recentemente pela Agência Pública revela que, durante o período chuvoso em São Paulo, uma pessoa morre, em média, a cada três dias em decorrência de eventos associados às condições meteorológicas, como enchentes, deslizamentos de terra e raios.

Mais do que fenômenos naturais isolados, os dados escancaram falhas estruturais e históricas na prevenção e na adaptação da cidade, que tornam a população refém dos impactos cada vez mais intensos da crise climática, sobretudo nas áreas mais vulneráveis.

De onde vem esses números?

A Agência Pública apurou junto à Defesa Civil de São Paulo os números de mortes relacionadas a enchentes, deslizamentos de terra e raios durante o período chuvoso entre 2022 e 2026. Para chegar a esta média, o levantamento considerou:

  • Período analisado: cinco períodos chuvosos consecutivos (2022 a 2026)
  • Intervalo considerado: de 1º de dezembro a 31 de março de cada ano
  • Total de dias analisados: 606 dias
  • Total de mortes registradas: 197

Quando dividimos o total de mortes pelo número de dias temos: 197 ÷ 606 = 0,325 mortes por dia. Para tornar o dado mais compreensível, o cálculo é invertido: ao dividir o total de dias pelo número de mortes, chega-se a uma média de uma morte a cada 3,07 dias, arredondada para uma morte a cada três dias durante o período chuvoso em São Paulo.

Período chuvoso de 2025-2026

Do total de 197 mortes, 12 foram registradas apenas nas 8 primeiras semanas do período chuvoso de 2025-2026. Na última sexta-feira (16), tempestades intensas afetaram diversas regiões da cidade mas, especialmente a Zona Sul.

No Campo Limpo, Zona Sul, pelo menos dois carros foram arrastados da Avenida Carlos Caldeira Filho para um córrego, vitimando um casal de idosos. Após este ocorrido, a prefeitura de São Paulo instalou blocos de concreto às margens do córrego, como uma “medida emergencial”. Mas isso está muito longe de resolver o real problema de adaptação das cidades frente ao aumento dos eventos extremos com a crescente crise climática.

Necessidade de chuva x vulnerabilidade

Embora o período chuvoso seja fundamental para o abastecimento hídrico, a regulação do clima e a manutenção dos ecossistemas, em São Paulo ele se converte, ano após ano, em um fator de risco para a população.

Nesse contexto, medidas de adaptação vão além de obras estruturais e passam também por sistemas eficientes de alerta precoce, capazes de comunicar riscos de forma clara e acessível, e por políticas de educação ambiental que ajudem a população a compreender os avisos meteorológicos e a importância de seguir as recomendações das autoridades.

Medidas de adaptação: quando a solução passa pela natureza

Especialistas em clima e planejamento urbano defendem que a redução dos impactos das chuvas e do calor nas cidades passa pela adoção das chamadas soluções baseadas na natureza, que combinam elementos naturais, como árvores, áreas verdes e corpos d’água, ao planejamento urbano.

Projeto de cidade-esponja em Zhejiang, na China, visa reter água da chuva no dentro das próprias cidades, diminuindo enchentes/alagamentos e garantindo reserva hídrica. Créditos: Adaptado de G1.
Projeto de cidade-esponja em Zhejiang, na China, visa reter água da chuva no dentro das próprias cidades, diminuindo enchentes/alagamentos e garantindo reserva hídrica. Créditos: Adaptado de G1.

Pesquisas nacionais e internacionais indicam que essas estratégias ajudam a reduzir temperaturas, melhorar a drenagem da água da chuva e diminuir riscos de alagamentos e deslizamentos, especialmente em áreas densamente urbanizadas.

Medidas como ruas arborizadas, parques, recuperação de várzeas e integração entre vegetação e obras de engenharia estão entre as mais eficazes formas de adaptação climática - ou seja, muito além da instalação de blocos de concreto às margens de um córrego.

A ampliação das áreas verdes auxilia a infiltração da água no solo, reduz temperaturas e melhora a qualidade de vida das pessoas. Crédito: Reprodução/Catarina Bacci/JC.
A ampliação das áreas verdes auxilia a infiltração da água no solo, reduz temperaturas e melhora a qualidade de vida das pessoas. Crédito: Reprodução/Catarina Bacci/JC.

Sem políticas públicas de adaptação baseadas em evidências científicas, a cidade segue reagindo às tragédias, em vez de preveni-las. A chuva, por sua vez, cumpre seu papel natural enquanto a cidade falha em proteger quem vive nas áreas mais vulneráveis.

Referência da notícia

Chuvas em SP: uma pessoa morre a cada 3 dias, entre dezembro e março, há 5 anos, publicado por Agência Pública em 21 de janeiro de 2026.

Ranking aponta melhores soluções para conter efeitos da crise climática nas cidades, publicado por Jornal do Campus da USP em 25 de outubro de 2025. https://www.jornaldocampus.usp.br/index.php/2025/10/melhores-solucoes-para-a-crise-climatica-nas-cidades/