Por que picadas de escorpião estão cada vez mais comuns nas cidades brasileiras; o Butantan explica
Os acidentes por picada de escorpião no Brasil aumentaram consideravelmente na última década, segundo dados do Ministério da Saúde. E a que se deve este aumento? Uma pesquisadora do Instituto Butantã explica.

No Brasil, existem cerca de 172 espécies de escorpião, e 4 delas oferecem mais riscos à saúde humana, as do gênero Tityus. Contudo, a espécie que mais causa acidentes, inclusive com mortes, no país é o Tityus serrulatus, também conhecido como escorpião-amarelo. O escorpião-amarelo é a espécie mais letal do Brasil e esta espécie vive nas Regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do país.
Os escorpiões são animais sinantrópicos, ou seja, permanecem próximos dos humanos por terem se adaptado bem ao ambiente urbano. E por isso o número de acidentes por picadas tem aumentado nos últimos anos.
Segundo dados do Ministério da Saúde, o número de acidentes provocados por picadas de escorpião na última década mais que dobrou no Brasil. Em 2015 foram registrados 85 mil casos, enquanto que em 2023 foram 200 mil – o ano recorde da série histórica. Ou seja, houve um aumento de 230% nos acidentes quando comparado ao período de 2005 a 2015.
E o que explica esse aumento no número de acidentes? Por que isso está mais comum nas cidades brasileiras? A bióloga e assistente técnica de apoio à pesquisa do Biotério de Artrópodes do Instituto Butantan Denise Candido explicou em uma entrevista.
Vários fatores explicam o crescimento substancial de acidentes
Segundo a pesquisadora, isso se deve à uma interação de vários fatores. Entre eles: a urbanização acelerada, as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade, além das próprias características biológicas do animal.
Urbanização acelerada
As cidades em expansão em áreas naturais muitas vezes faltam em infraestrutura básica, como falta de saneamento básico e acúmulo de lixo, e isso faz com que os novos ambientes urbanos se tornem ideais para a proliferação de presas do escorpião, como as baratas, o que então acaba atraindo o animal.
Além disso, em áreas urbanas o outro fator de seu aumento é a sua capacidade de reprodução por partenogênese. As fêmeas são capazes de gerar descendentes sem necessidade de acasalamento com o macho. A pesquisadora explica que um único indivíduo pode dar origem a toda uma população, desde que encontre alimento, abrigo e água (itens que tem de sobra nas áreas urbanas).
Mudanças climáticas
Aqui podemos falar de dois fatores: aquecimento global e desmatamento.
O calor é um fator importante, pois durante o período de altas temperaturas, os escorpiões ficam mais ativos, deslocando-se com frequência em busca de alimentos e intensificando sua capacidade de replicação por meio da partenogênese. Sendo assim, os encontros entre humanos e o animal e o risco de picadas aumentam.
Já o desmatamento tem contribuído para que outras espécies de escorpião cheguem a outras áreas de maior densidade demográfica. Isso especialmente na Região Norte do país, por exemplo. Os animais que vivem em áreas com florestas que foram desmatadas tendem a se deslocar e ser encontrados em outras áreas urbanas próximas.
Características biológicas
Os escorpiões têm facilidade de adaptação, se estabelecendo em ambientes modificados como consequência direta de sua biologia.
Eles desenvolveram alguns mecanismos para sua proteção: a capacidade de “bloquear” seu sistema respiratório para evitar intoxicação; suportar longos períodos submersos na água; e até detectar vibrações no ambiente por meio de pêlos e órgãos sensoriais.
E as projeções futuras para os próximos 50 anos indicam que os números de acidentes devem seguir em crescimento, especialmente em cidades com baixa cobertura vegetal e com reduzida presença de predadores naturais de escorpião.
Referência da notícia
Por que os acidentes por picada de escorpião aumentaram tanto na última década? 13 de fevereiro, 2026. Natasha Pinelli.