Novo estudo aponta falhas no combate ao calor extremo no Brasil

Apesar de a maioria dos gestores urbanos reconhecer o calor extremo como um grande desafio, a falta de planejamento prático e de infraestrutura de resfriamento coloca em risco milhões de cidadãos nas metrópoles.

A escassez de dados estruturados e recursos financeiros compromete a segurança climática e a adaptação das grandes metrópoles brasileiras. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
A escassez de dados estruturados e recursos financeiros compromete a segurança climática e a adaptação das grandes metrópoles brasileiras. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

A maior parte dos municípios brasileiros enfrenta graves dificuldades no planejamento contra as ondas de calor. De acordo com um estudo recente, cerca de 66% das cidades do país ainda não iniciaram ou estão apenas no começo da elaboração de planos de ação estruturados para lidar com o calor extremo.

O relatório foi apresentado pela presidência brasileira da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30) e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). O documento alerta para a urgência de medidas coordenadas diante de uma ameaça meteorológica crescente.

O contraste entre o reconhecimento e a prática local

A pesquisa realizada em 53 municípios revelou dados contraditórios sobre a gestão pública. Embora 93% dos gestores classifiquem o fenômeno como um problema relevante e 68% o apontem como um dos três maiores desafios locais, a capacidade de resposta prática permanece bastante limitada.

Atualmente, os entraves estão na falta de dados estruturados. Cerca de 75% das cidades não utilizam dados estatísticos organizados para tomar decisões, enquanto 85% dos municípios dependem de recursos financeiros externos para implementar estratégias de adaptação ao clima urbano.

A cidade do Rio de Janeiro vem atingindo níveis máximos de calor nos últimos dois anos. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
A cidade do Rio de Janeiro vem atingindo níveis máximos de calor nos últimos dois anos. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Além disso, apenas 42% dispõem de sistemas de informações geográficas para mapear áreas de risco térmico. Quanto às compras públicas, mais de 80% das administrações ainda não integraram critérios sustentáveis direcionados para o resfriamento urbano nas suas políticas de contratação estatal.

No que diz respeito às ações práticas, 77% das localidades focam em soluções baseadas na natureza, como arborização e parques. No entanto, o resfriamento passivo em edifícios, através de ventilação cruzada ou materiais refletores, é adotado por apenas 21% ou menos das prefeituras.

O impacto na saúde pública e o perigo das ondas de calor

O calor extremo se caracteriza por dois ou mais dias seguidos em que a temperatura acumulada diurna não se dissipa à noite. Esse fenômeno funciona como uma escada térmica que impede a recuperação física dos cidadãos, afetando os sistemas urbanos e a agricultura.

As consequências humanas são severas, com o PNUMA estimando cerca de meio milhão de mortes anuais em todo o mundo. No Brasil, entre 2000 e 2020, as ondas de calor provocaram perto de 50 mil mortes em regiões metropolitanas, superando as fatalidades causadas por enxurradas.

A urgência aumenta com a previsão da formação de um "Super El Niño" na segunda metade de 2026. Essa previsão do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) indica a intensificação de secas no Norte e Nordeste e calor no Centro.

Planejamento e metas para os próximos meses

O levantamento integra a iniciativa global Mutirão Contra o Calor Extremo, na Coalizão pelo Resfriamento. Esse projeto apoia 258 cidades mundiais, incluindo 105 brasileiras, fornecendo suporte técnico para diagnósticos locais e formulação de estratégias financeiras viáveis.

Nos próximos 12 a 18 meses, 51% das prefeituras participantes pretendem desenhar políticas municipais completas sobre a matéria. Adicionalmente, 28% planejam intervenções estruturais focadas nas comunidades mais vulneráveis, visando mitigar os efeitos da desigualdade climática urbana.

A expectativa dos organizadores do programa é que as novas medidas beneficiem diretamente cerca de 7 milhões de cidadãos. No total, as localidades envolvidas nessas metas ambientais somam uma população estimada em 50 milhões de habitantes em todo o território brasileiro.

Referências da notícia

Maioria das cidades do Brasil não tem plano de ação para calor extremo. 3 de junho, 2026

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