Pesquisadores descobrem sinais de alerta no Rio Negro nas mudanças de estação

Estudo com 60 pontos no Rio Negro, em Manaus, revela que as estações mudam a química da água e que alumínio e fósforo merecem atenção, em um cenário influenciado tanto pelo ciclo natural do rio quanto pela pressão urbana.

As águas do Rio Negro mudam ao longo do ano, refletindo a força das cheias, das secas e da pressão urbana.
As águas do Rio Negro mudam ao longo do ano, refletindo a força das cheias, das secas e da pressão urbana.

O Rio Negro, um dos grandes símbolos da Amazônia, voltou ao centro do debate ambiental por um motivo que afeta diretamente a vida nas cidades, a saúde dos ecossistemas e a qualidade da água. Um estudo analisou a presença de elementos potencialmente tóxicos nas águas do rio ao longo de diferentes épocas do ano, mostrando que a sazonalidade altera de forma clara a composição química da água.

A pesquisa foi conduzida por cientistas ligados à Universidade do Estado do Amazonas e à Universidade Federal do Oeste do Pará.

O trabalho avaliou 60 pontos de amostragem ao longo do Rio Negro, em Manaus, em três momentos distintos: janeiro de 2023, setembro de 2023 e março de 2024. Os resultados indicaram que alumínio e fósforo apareceram em concentrações acima dos limites de referência em todos os períodos analisados, enquanto outros elementos mostraram variações ligadas tanto ao ciclo das cheias e secas quanto à influência urbana.

Um rio que muda com a água

Na Amazônia, o ritmo dos rios acompanha o pulso das chuvas. É esse movimento que ajuda a explicar por que a água do Rio Negro não apresenta sempre a mesma composição. No período de menor volume de água, certas substâncias ficam mais concentradas. Já nas fases em que o rio recebe mais contribuição das chuvas e do escoamento superficial, parte desses materiais pode se dispersar, se diluir ou ser transportada de outra forma.

No caso estudado em Manaus, essa diferença ficou evidente. Em janeiro, apareceram concentrações mais altas de vários elementos, enquanto setembro teve outro perfil químico e março mostrou uma distribuição mais homogênea, com destaque para poucos componentes. Em outras palavras, o que o estudo mostra é que olhar a qualidade da água em apenas uma data pode esconder uma realidade muito mais complexa.

O que chamou mais atenção nos resultados

Os autores destacam que o alumínio e o fósforo foram os principais sinais de alerta. O alumínio apareceu acima dos limites legais em todas as campanhas, mas o próprio estudo pondera que parte desse comportamento está ligada às características naturais do Rio Negro, um rio de águas ácidas, ricas em matéria orgânica dissolvida.

Já o fósforo preocupa porque, em excesso, pode favorecer desequilíbrios ecológicos e indicar influência de escoamento urbano e matéria orgânica.

Entre os pontos centrais do trabalho, valem destaque:

  • 60 locais de coleta foram analisados ao longo do rio;
  • as amostras cobriram três momentos do ciclo hidrológico;
  • alumínio e fósforo ficaram acima dos valores de referência;
  • a sazonalidade foi importante, mas não explicou tudo sozinha;
  • urbanização, agricultura próxima e descargas industriais também entraram no radar.

Entre o ciclo do rio e a pressão humana

O valor do estudo vai além dos números de laboratório. O Rio Negro tem papel ambiental, social e econômico enorme para Manaus e para a região amazônica. Ele participa do abastecimento, da navegação, do lazer e da própria dinâmica climática regional. Por isso, entender como a água responde às estações e às pressões humanas é essencial para planejar monitoramento, prevenção e políticas públicas mais realistas.

A principal mensagem do trabalho é clara: a qualidade da água do Rio Negro depende de uma combinação delicada entre natureza e ação humana. As cheias e secas continuam comandando boa parte da variação observada, mas a expansão urbana, áreas agrícolas próximas e possíveis lançamentos de resíduos ampliam a preocupação. Em um momento em que a Amazônia vive extremos climáticos e pressão crescente sobre seus rios, acompanhar esses sinais deixa de ser apenas tarefa científica e passa a ser uma necessidade pública.

Referência da notícia

Distribution and seasonality of potentially toxic elements (PTEs) in the waters of the Negro river in Manaus, Amazonas, Brazil. 24 de março, 2026. dos Banhos, E.F., Arcos, A.N., Oliveira, R.L.e. et al.