Peixe-leão avança pela costa brasileira, invade áreas protegidas e ameaça biodiversidade marinha

Espécie invasora e venenosa já alcançou áreas de preservação ambiental, ameaça peixes nativos e preocupa pesquisadores pela rápida disseminação em ecossistemas marinhos estratégicos do litoral brasileiro.

Peixe-leão, espécie invasora e venenosa para o ecossistema marítimo. Crédito: ICMbio-Noronha
Peixe-leão, espécie invasora e venenosa para o ecossistema marítimo. Crédito: ICMbio-Noronha

O avanço do peixe-leão pela costa brasileira tem gerado preocupação entre pesquisadores e autoridades ambientais devido aos impactos provocados pela espécie invasora nos ecossistemas marinhos. O animal, conhecido cientificamente como Pterois volitans, é venenoso, possui alta capacidade de reprodução e já foi identificado em diversas áreas protegidas do país, colocando em risco espécies nativas e atividades ligadas à pesca artesanal.

O primeiro registro oficial do peixe-leão no Brasil ocorreu em 2020, no arquipélago de Fernando de Noronha, em Pernambuco. Desde então, a espécie passou a se espalhar rapidamente por diferentes regiões do litoral brasileiro, atingindo ambientes considerados estratégicos para a conservação da biodiversidade marinha.

A expansão do animal foi analisada no estudo “Peixes-leão invasores se espalham por áreas marinhas protegidas do Atlântico Sudoeste”, publicado pela revista científica Elsevier. Segundo os pesquisadores, os peixes da família Scorpaenidae são originários da região Indo-Pacífica, mas começaram a se espalhar pelo Caribe e pelo Golfo do México a partir da década de 1980, chegando posteriormente ao Atlântico Sul.

Espécie invasora ameaça ecossistemas marinhos

Os pesquisadores apontam que a chegada do peixe-leão ao litoral brasileiro provavelmente ocorreu por meio do sistema de recifes da Grande Amazônia, conectando o Caribe à costa norte da América do Sul. A partir dessa rota, o animal passou a ocupar diferentes habitats marinhos ao longo do território nacional.

Atualmente, a espécie já foi encontrada em ilhas oceânicas, manguezais, pradarias marinhas, naufrágios e recifes rasos. A capacidade de adaptação a ambientes distintos é considerada um dos fatores que favorecem sua rápida disseminação e dificultam o controle da invasão biológica.

Além da ameaça ambiental, o peixe-leão também representa riscos à saúde pública. O animal possui espinhos venenosos que podem causar acidentes dolorosos em pescadores, mergulhadores e pesquisadores. Há relatos de profissionais feridos durante atividades de monitoramento e manejo da espécie em áreas costeiras brasileiras.

Impactos atingem espécies nativas e pesca artesanal

De acordo com o estudo, a presença do peixe-leão pode provocar desequilíbrios severos na cadeia alimentar marinha. Como predador eficiente e sem inimigos naturais significativos na região, o animal consome espécies importantes para o funcionamento dos recifes e compromete a biodiversidade local.

Peixe-leão capturado em Noronha. Crédito: Fernando Rodrigues/Sea Paradise
Peixe-leão capturado em Noronha. Crédito: Fernando Rodrigues/Sea Paradise

Entre as maiores preocupações dos cientistas estão os impactos sobre espécies endêmicas, especialmente os chamados peixes criptobênticos, pequenos organismos que vivem associados aos recifes e exercem papel fundamental na produtividade dos ecossistemas marinhos. A pesquisa identificou ao menos 29 espécies de peixes endêmicos vulneráveis à predação do peixe-leão invasor.

Os efeitos da invasão também atingem diretamente comunidades tradicionais que dependem da pesca artesanal. A redução de espécies nativas e os riscos de acidentes durante a captura preocupam pescadores de diferentes regiões do país, especialmente em áreas costeiras protegidas. Entre 2020 e 2024, ao menos 18 Áreas Marinhas Protegidas (AMPs) registraram a presença do peixe-leão. Dessas, doze são de uso sustentável, três correspondem a parques marinhos, uma é reserva biológica e duas são voltadas à proteção da pesca artesanal.

Falta de políticas públicas preocupa especialistas

Apesar do crescimento acelerado da invasão, pesquisadores afirmam que ainda faltam dados científicos suficientes para orientar medidas eficazes de controle e adaptação dos ecossistemas afetados. Segundo os estudiosos, a ausência de políticas públicas específicas e a limitação de recursos financeiros dificultam o avanço das pesquisas e das estratégias de manejo.

As projeções indicam que, nos próximos dez anos, o peixe-leão poderá alcançar cerca de 60% das Áreas Marinhas Protegidas do Brasil. Para os autores do estudo, o cenário exige ações coordenadas e urgentes para evitar danos ainda maiores à biodiversidade marinha nacional.

Em nota, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) de Fernando de Noronha alertou que a captura do peixe-leão deve ser feita apenas por pessoas autorizadas e treinadas. O órgão reforça que, devido aos espinhos venenosos do animal, qualquer contato inadequado pode provocar acidentes graves.

Referências da notícia

CNN Brasil. Peixe venenoso se espalha pela costa brasileira e ameaça biodiversidade. 2026

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