O primeiro funeral de uma geleira não será o último

O funeral aconteceu apenas alguns dias depois de os cientistas confirmarem que julho foi o mês mais quente da Terra já registrado. Se as geleiras continuarem a derreter na acelerada taxa atual, isso representará uma série de perigos para o planeta.

Davi Moura Davi Moura 20 Ago. 2019 - 17:32 UTC
Uma vítima da mudança climática: a geleira Okjökull da Islândia em 1986 (à esquerda) e este mês (à direita). Fonte: qz.com.

O clima da Terra mudou ao longo da história. Apenas nos últimos 650.000 anos houve sete ciclos de avanço e recuo glacial, com o fim abrupto da última era glacial, cerca de aproximadamente 7.000 anos atrás, marcando o início da era climática moderna - e da civilização humana. A maioria dessas mudanças climáticas do passado é atribuída a variações muito pequenas na órbita da Terra que alteram a quantidade de energia solar que nosso planeta recebe. Porém, as mudanças climáticas que sempre ocorreram no passado, agora possuem um novo agravante: o homem.

O gelo cobre atualmente cerca de 10% da Islândia, mas o aumento da temperatura global causado pela queima de combustíveis fósseis e as emissões de outros gases de efeito estufa estão causando derretimento das geleiras, elevando o nível do mar e ameaçando criar alterações climáticas catastróficas. Nesta semana, dezenas de pessoas, incluindo o primeiro-ministro da Islândia e outros líderes, caminharam até o local da geleira Okjökull, que foi declarada morta em 2014, para instalar uma placa que traz uma mensagem para o futuro e para lembrar a geleira.

Na placa, escrita pelo autor islandês Andri Snær Magnason e divulgada no mês passado por pesquisadores da Universidade Rice, no Texas, comunicam a sombria situação: “Ok [abreviação de Okjökull] é a primeira geleira islandesa a perder seu status de geleira. Nos próximos 200 anos, todas as nossas principais geleiras deverão seguir o mesmo caminho. Este monumento é para reconhecer que sabemos o que está acontecendo e o que precisa ser feito. Só você sabe se nós fizemos isso.”

O memorial em Okjökull é uma das vários formas não convencionais usadas recentemente por cientistas e ativistas para mostrar ao mundo que agora é hora de tomar medidas para conter o aquecimento global. Em todo o mundo, as geleiras derretidas perdem cerca de 335 bilhões de toneladas de gelo por ano. Esta é a conclusão a que chegaram os pesquisadores de Zurique, que analisaram as medições de satélite e observações no local.

No início do mês, o IPCC, em um relatório especial, descobriu que o aumento global da temperatura em toda a terra já é de 1,53 graus em comparação com os tempos pré-industriais. Michael Zemp, da Universidade de Zurique, disse em abril que o mundo está perdendo cerca de três vezes o volume glacial restante dos Alpes europeus a cada ano. As geleiras teriam perdido mais de 9 bilhões de toneladas de gelo entre 1961 e 2016.

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