O El Niño finalmente está estabelecido!

O El Niño, apesar de atrasado, finalmente se estabeleceu no último mês de fevereiro! Todos os critérios foram cumpridos, inclusive o acoplamento oceano-atmosfera, que não havia ocorrido até então. Entenda quais são os critérios de estabelecimento do El Niño!

Paola Bueno Paola Bueno 19 Mar. 2019 - 06:34 UTC
Apesar das anomalias de temperatura de superfície do mar não estarem tão intensas, o El Niño está estabelecido. Fonte: NASA/Podaac.

Após meses de espera, o El Niño finalmente se estabeleceu em fevereiro! Desde o meio do ano passado estamos observando águas mais quentes que o normal no Oceano Pacífico Equatorial, mas até então a atmosfera não respondia a essas anomalias, não cumprindo um dos critérios de estabelecimento do El Niño-Oscilação Sul (ENOS), o acoplamento oceano-atmosfera. Porém, em fevereiro, a atmosfera finalmente passou a responder o oceano, cumprindo todos os critérios para decretar oficialmente o El Niño!

Quais são os critérios para o estabelecimento do El Niño?

Em primeiro lugar, a principal assinatura do El Niño são as anomalias quentes de temperatura de superfície do mar (TSM) no Pacífico Equatorial Central e Leste. Quando registramos anomalias quentes iguais ou superiores a 0.5°C, perdurando por alguns meses, temos o primeiro indicativo do El Niño. Desde setembro do ano passado estamos registrando anomalias entre 0.5°C e 1°C. Atualmente, todas as regiões do Niño (Niño 1+2, 3, 3.4 e 4) estão com anomalias próximas de 1°C.

Além de observar as anomalias quentes, principalmente no Niño 3.4, devemos prever a continuidade dessas anomalias para saber se o evento tem possibilidade de continuar. Para isso, analisamos as previsões feitas pelos modelos numéricos, como os disponibilizados pelo IRI, ou avaliamos a evolução das anomalias das águas subsuperficiais. Durante o desenvolvimento do El Niño, notamos logo abaixo da superfície oceânica existe uma camada de água mais quente que o normal, essa água mais quente em profundidade vem do Pacífico Equatorial Oeste, via ondas de Kelvin oceânicas, e é ela a responsável pelo aquecimento da TSM. Portanto, se notarmos que está ocorrendo um transporte de águas mais quentes que o normal do Pacífico Oeste para Leste, temos o indicativo que o El Niño deve continuar.

Painel de critérios a serem cumpridos para o estabelecimento do evento de El Niño. Adaptado de Climate.gov

Após avaliar o oceano, devemos analisar a atmosfera! Esperamos que com o Pacífico Equatorial mais aquecido haja um enfraquecimento da célula de circulação zonal de Walker, ou seja, o enfraquecimento dos ventos alísios permite o deslocamento do centro de convecção da Indonésia para o Pacífico Central. E foi exatamente isso que vimos no mês de fevereiro!

Finalmente observamos um aumento de nebulosidade e chuva no Pacífico Central e redução no Pacífico Oeste, associado a um enfraquecimento dos ventos alísios. Com isso, o principal índice atmosférico do ENOS, o Índice de Oscilação Sul (SOI, em inglês), foi de -1.4 em fevereiro, indicando a resposta atmosférica.

Mas por que a resposta atmosférica demorou tanto?

O principal motivo: precisa haver um gradiente de TSM entre o Pacífico Equatorial Oeste e Central/Leste para que a célula de Walker se enfraqueça e o centro de convecção máxima se desloque para leste, e isso não havia ocorrido até então. Somente no início desse ano o Pacífico Central/Leste passou a ficar mais quente que o Pacífico Oeste, gerando então o gradiente necessário para alterar a célula de Walker.

É importante ressaltar que como a atmosfera só passou a responder agora, os efeitos aqui no Brasil passarão a ocorrer somente nos próximos meses. E, além disso, esse é um evento de El Niño fraco, já que as anomalias de TSM não passaram de 1°C e as projeções indicam que permanecerão assim durante o outono, portanto ele não estará dominando a circulação global, dando espaço para a atuação de outros sistemas de variabilidade climática, como a Oscilação de Madden-Julian e a Oscilação Antártica.

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