tempo.com

O aquecimento global aumentará a ocorrência de super El Niños

Um estudo recente publicado pela Nature traz a tona evidências mais concretas de que o aquecimento global implicará em maiores variações e maior frequência na ocorrência de eventos de El Niño, principalmente de super El Niños!

O aquecimento global aumentará a variabilidade e frequência de super El Niños no Pacífico Leste, de acordo com estudo da Nature.

Os eventos intensos de El Niño, chamados de super El Niño, poderão ficar mais intensos e frequentes nos próximos anos devido aos efeitos do aquecimento global. Esse importante resultado foi encontrado em um estudo publicado pela revista Nature, a mais aclamada no meio científico, na semana passada, e traz a tona evidências mais concretas de que o aquecimento da atmosfera, devido às atividades humanas, poderá afetar o mais importante fenômeno climático do mundo, o El Niño-Oscilação Sul.

Com já dito em outro artigo, durante um episodio de El Niño a temperatura da superfície do mar (TSM) do Oceano Pacífico Equatorial fica mais quente que o normal (anomalia quente de TSM), essa alteração de TSM modifica as células de circulação atmosférica, o que acaba resultando em eventos extremos climáticos pelo mundo, como a ocorrência de secas e inundações. Além disso, o El Niño-Oscilação Sul possui dois tipos bem definidos, um onde a região de máxima anomalia fica posicionada no Pacífico Leste (tipo Canônico) e outro onde as anomalias ficam posicionadas no Pacífico Central (tipo Modoki).

Nesse estudo os pesquisadores mostraram que essas modificações na circulação atmosférica são maiores no caso do El Niño no Pacífico Leste do que no Central, ou seja, os eventos de El Niño Canônico provocam maiores modificações na atmosfera do que o El Niño Modoki. Dessa forma, eles investigaram as previsões até 2100 de um conjunto de modelos climáticos, para então inferir as alterações previstas de cada modelo sobre a frequência e intensidade de El Niños Canônicos, principalmente os mais intensos (super El Niños), sob um cenário pessimista onde as emissões de gases estufa continuassem bem altas, como estão atualmente.

Figura ilustrativa que mostra a tendência das anomalias de TSM nas diferentes regiões do ENOS e as alterações observadas na circulação atmosférica. Adaptado da Nature.

Dos 17 modelos climáticos que melhor representavam os eventos de El Niño, 15 preveem um aumento da variabilidade de TSM no Pacífico Leste, ou seja, 88% dos modelos preveem um aumento das anomalias de TSM associadas ao El Niño Canônico. Isso implica em um aumento de 45% na frequência de eventos fortes, os super El Niños.

Por tanto, super El Niños como o de 2015, um dos mais intensos da história, responsável por vários extremos climáticos pelo mundo e responsável por tornar o ano de 2015 o mais quente da história, podem ocorrer com maior frequência nos próximos anos devido ao aquecimento global.

Mas por que o aquecimento global favoreceria a ocorrência de super El Niños?

De acordo com a pesquisa feita, sob condições de aquecimento global, o aquecimento da TSM ocorre mais rapidamente na camada superficial do oceano Pacífico Leste do que nas camadas subsuperficiais. Isso acaba aumentando o gradiente vertical de temperatura do oceano que, por sua vez, aumenta o acoplamento dinâmico entre a atmosfera e o oceano. Dessa forma, o sistema equatorial oceano-atmofera se torna mais eficiente em converter as variações atmosféricas em eventos de El Niño.

Além disso, os pesquisadores também mostraram que, através de um mecanismo semelhante ao citado acima, a variabilidade de TSM no Pacífico Central também é aumentada sob o cenário de aquecimento global, mas de uma forma não tão intensa quanto a do Pacífico Leste. Consequentemente, isso implicaria em uma maior frequência de eventos de El Niño Modoki e eventos de La Niña intensos.