Noites mais quentes: calor já tira 56 horas de sono por ano; entenda
Noites mais quentes já retiram quase 56 horas de sono por pessoa a cada ano, enquanto o aquecimento causado pelas atividades humanas amplia o problema em praticamente todas as grandes cidades analisadas ao redor do planeta inteiro.

Dormir mal durante uma noite abafada pode parecer apenas um incômodo, mas o efeito acumulado do calor noturno já é mensurável em escala global. Uma análise da Climate Central estima que uma pessoa perdeu, em média, quase 56 horas de sono por ano entre 2020 e 2025 por causa de temperaturas noturnas elevadas.
Desse total, cerca de seis horas anuais foram atribuídas ao aquecimento provocado pelas atividades humanas. O valor corresponde a pouco mais de 10% da perda estimada e equivale, de forma acumulada, a quase uma noite de oito horas. Não significa, porém, permanecer uma noite inteira acordado, mas perder minutos de descanso em várias madrugadas ao longo do ano.
Por que o calor noturno reduz o tempo de sono?
Para adormecer e manter o sono, o organismo precisa diminuir sua temperatura interna. Quando o ambiente permanece quente durante a madrugada, esse resfriamento fica mais difícil, sobretudo em quartos mal ventilados, úmidos ou construídos com materiais que retêm calor. Nessas condições, a pessoa tende a dormir mais tarde, acordar mais vezes ou despertar antes do horário habitual.

A estimativa foi baseada em uma relação estatística publicada em 2022, construída com mais de sete milhões de registros de sono de 47.628 pessoas em 68 países. Os pesquisadores aplicaram essa resposta às temperaturas mínimas observadas e a um cenário contrafactual, que representa como seriam as noites sem a influência do aquecimento causado pela emissão de gases de efeito estufa.
Quem enfrenta os maiores impactos?
A perda de sono não se distribui de maneira uniforme. Idade, renda, localização, tipo de moradia e acesso à refrigeração alteram a capacidade de adaptação. Os grupos mais vulneráveis incluem:
- pessoas com mais de 65 anos, mais sensíveis ao calor;
- moradores de residências sem ventilação ou climatização adequadas;
- populações de baixa renda expostas a construções mais quentes;
- habitantes de grandes cidades afetadas por ilhas de calor;
- trabalhadores com horários rígidos, sem possibilidade de recuperar o descanso;
- pessoas que vivem em regiões quentes e úmidas.
Entre idosos, o efeito do calor noturno pode ser mais de duas vezes maior do que entre adultos de meia-idade. A análise também aponta impactos mais intensos entre mulheres, moradores de países de renda média baixa e populações já habituadas a climas quentes. O ar-condicionado reduz parte do desconforto, mas seu acesso ainda depende fortemente da renda.
Mudança climática torna noites quentes mais prejudiciais
A Climate Central avaliou 1.338 cidades com mais de 500 mil habitantes. Em 1.335 delas, a parcela da perda de sono associada à mudança climática pelo menos dobrou desde o início da década de 1970. Em 840 cidades, esse efeito ao menos triplicou, mostrando que o aquecimento global está ampliando um problema já existente.

As maiores perdas apareceram no Oriente Médio, no sul da Ásia, no Sudeste Asiático e no oeste da África. Em cidades da Arábia Saudita, Omã e Emirados Árabes Unidos, o calor noturno esteve associado a 55 a 87 horas anuais de sono perdido, das quais 12 a 16 horas foram relacionadas à mudança climática. Em partes do sul da Ásia, as perdas totais chegaram a superar 90 horas por ano.
Mesmo sendo estimativas modeladas, os resultados indicam uma mudança concreta para a ciência, o planejamento urbano e o comportamento diário. Reduzir o calor dentro das cidades, ampliar áreas verdes, melhorar a ventilação das moradias e adaptar hábitos noturnos passa a ser uma medida de saúde, não apenas de conforto.
Referência da notícia
Kelton Minor. (2026). Climate Change is Costing People Sleep.