Estudo alerta: Belém pode enfrentar ondas de calor assustadoras e muito mais longas
Estudo sobre Belém publicado em revista científica internacional indica que ondas de calor tendem a ficar mais frequentes longas e intensas sob altas emissões transformando o calor amazônico em risco persistente para cidades tropicais nas próximas décadas.

Belém, uma das principais metrópoles da Amazônia, pode enfrentar ondas de calor muito mais longas e frequentes nas próximas décadas se as emissões globais seguirem em patamar elevado. A mudança mais preocupante não está apenas em dias isolados de temperatura alta, mas na duração dos episódios extremos.
Um estudo analisou a temperatura máxima diária na capital paraense e projetou como as ondas de calor podem evoluir até 2074. No cenário de altas emissões, os eventos mais extremos deixam de ser episódios curtos e passam a representar períodos prolongados de exposição ao calor.
Belém já mostra sinais de calor mais persistente
A pesquisa identificou 126 ondas de calor entre 1994 e 2023, com aumento mais evidente na última década. O ano de 2023 foi o mais crítico da série, com 23 eventos, em um contexto marcado por forte El Niño e temperaturas elevadas em várias áreas da Amazônia.

Para chegar a esses números, os pesquisadores consideraram onda de calor como uma sequência de pelo menos três dias com temperatura máxima acima de um limite extremo calculado para cada época do ano. Isso evita comparar meses diferentes de forma inadequada e permite detectar calor fora do padrão local, não apenas dias quentes comuns na região.
Alta emissão muda o tamanho do problema
O ponto mais forte do estudo está nas projeções para 2050 a 2074. No cenário SSP5-8.5 (o mais pessimista), associado a emissões muito elevadas, a frequência anual de ondas de calor mais que dobra em relação ao período atual.
Na prática, isso indica uma mudança no regime do calor. Não se trata apenas de um pico de temperatura em uma tarde abafada, mas de episódios persistentes, capazes de manter a população exposta por muitos dias seguidos. Os principais achados são:
- as ondas de calor se tornam mais frequentes no cenário de altas emissões;
- os eventos mais longos passam a durar várias semanas;
- o pico de temperatura máxima durante os episódios também aumenta;
- no cenário de forte mitigação, as mudanças ficam próximas das condições atuais.
Risco urbano cresce onde o calor já pesa mais
O estudo não calcula impactos diretos na saúde, na energia ou na infraestrutura, mas os resultados apontam para um risco climático relevante em cidades tropicais. Em áreas urbanas densas, o calor persistente pode ser agravado por asfalto, concreto, baixa ventilação e menor presença de vegetação, favorecendo ilhas de calor.
Belém não representa apenas uma cidade isolada: ela simboliza um desafio crescente para metrópoles amazônicas, onde expansão urbana, umidade elevada e extremos térmicos podem se combinar. Para o Brasil, o alerta é claro: reduzir emissões limita parte da intensificação projetada, enquanto cenários de altas emissões transformam ondas de calor em eventos mais longos, frequentes e difíceis de administrar.
Referência da notícia
de Souza, E.B., Ferreira, D.B.S., da Cunha, A.C. et al. (2026). Projected heatwave hazards in an eastern Amazonian metropolis under contrasting CMIP6 scenarios.