Lucro da Vale é 330 vezes maior que investimentos socioambientais na Amazônia
Enquanto promove imagem de sustentabilidade na COP 30, mineradora acumula lucros bilionários, enfrenta ações judiciais e é acusada de greenwashing por pesquisadores e órgãos de controle ambiental.

A mineradora Vale tenta transformar a COP 30, que tem início em Belém, em vitrine de uma nova fase “verde”. A empresa, alvo de críticas por danos ambientais e violações de direitos humanos, busca associar sua imagem à transição climática e ao desenvolvimento sustentável da Amazônia. Com incentivos fiscais do governo do Pará, a companhia financiou e gerenciou a construção da área que abriga o evento — símbolo de uma parceria público-privada que gerou questionamentos sobre conflitos de interesse.
Desde o desastre de Mariana, em 2015, a Vale acumulou cerca de R$ 335 bilhões em lucros líquidos, enquanto afirma ter investido R$ 1 bilhão em ações socioambientais, pesquisa, cultura e desenvolvimento na Amazônia — valor 330 vezes menor. Ao mesmo tempo, a empresa mantém dívidas de quase R$ 49 bilhões com a União e R$ 29,8 bilhões em benefícios fiscais concedidos, segundo dados oficiais.
Em 2024, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) multou a Vale e a Samarco em R$ 1,9 bilhão por tentativa de reembolso de despesas ligadas à reparação de Mariana. Para especialistas, esse conjunto de números evidencia um descompasso entre o discurso de responsabilidade socioambiental e a prática financeira da mineradora.
Fundo Vale e as acusações de greenwashing
A principal frente de investimentos ambientais da empresa é o Fundo Vale, que declara ter aportado R$ 430 milhões em projetos de impacto socioambiental. A mineradora afirma que o fundo promove “conservação e restauração ambiental aliadas a negócios sustentáveis”. Pesquisadores, porém, classificam essas iniciativas como greenwashing — o uso de marketing ambiental para disfarçar práticas nocivas ao meio ambiente.

Estudos recentes reforçam essa visão. O NetLab/UFRJ, em relatório sobre greenwashing no setor mineral, mostrou que 88,6% dos anúncios de mineração analisados continham indícios de manipulação verde, com a Vale liderando os casos. Outra pesquisa, da UFMG, concluiu que a comunicação corporativa da mineradora enfatiza a “sustentabilidade ambiental” enquanto omite impactos negativos de suas operações.
A mineradora já foi condenada por práticas semelhantes. Em 2024, o MPF obteve sentença contra a Fundação Renova, Vale, BHP e Samarco, obrigando-as a pagar R$ 56 milhões por disseminarem uma “narrativa fantasiosa” sobre a recuperação de Mariana, com campanhas publicitárias que distorciam informações sobre toxicidade e indenizações.
Estratégia de imagem na COP 30
A COP 30 tornou-se o maior palco da estratégia global da Vale para reafirmar sua “mineração sustentável”. A empresa patrocina eventos culturais, produções audiovisuais e ações de comunicação, como um álbum de figurinhas ambiental e o show da cantora Mariah Carey em Belém. Paralelamente, promove fóruns como o “Carajás Roundtable”, apresentando programas de investimento de R$ 70 bilhões e aproximando-se do governo federal.
Nos bastidores, entretanto, a empresa continua entre as maiores emissoras privadas de CO₂ do planeta, e suas metas de “neutralidade de carbono” excluem 98% das emissões totais. Comunidades indígenas, como o povo Gavião, denunciam que a ferrovia da Vale atravessa suas terras, gerando impactos ambientais e sociais profundos.
Capital internacional e resposta da empresa
Apesar das críticas, a Vale mantém forte apoio financeiro global. Entre 2016 e 2024, recebeu US$ 15,8 bilhões em crédito de grandes bancos, enquanto investidores como BlackRock, Caixa e Vanguard detêm bilhões em ações da mineradora. Ainda assim, 48 fundos internacionais já a excluíram de seus portfólios por más práticas socioambientais.
Em nota, a empresa nega o greenwashing. Afirma participar das COPs “para contribuir com a agenda climática global” e sustenta que protege 1,1 milhão de hectares de florestas, sendo 800 mil na Amazônia. Alega também ter investido R$ 1 bilhão em iniciativas socioambientais e culturais na última década, além de R$ 1,2 bilhão em projetos culturais via Instituto Cultural Vale.
A discrepância entre os números, contudo, alimenta o debate: a maior mineradora do país estaria realmente comprometida com a sustentabilidade ou apenas tentando polir a própria imagem diante do mundo?
Referência da notícia
Observatório da Mineração. Lucro da Vale é mais de 330 vezes maior do que investimentos da mineradora na área socioambiental na Amazônia. 2025