Já estamos sofrendo com os impactos das mudanças no oceano e criosfera

O relatório especial do IPCC sobre Oceano e Criosfera nas Mudanças Climáticas tráz evidências alarmantes de como o aquecimento global já está impactando ecossistemas e comunidades. As populações mais vulneráveis já sofrem, e problemas econômicos, culturais e de subsistência devem ser discutidos.

Carolina Barnez Carolina Barnez 26 Set. 2019 - 11:45 UTC
O IPCC lançou no final deste mês o relatório especial de Oceano e Criosfera nas Mudanças Climáticas.

No último fim de semana, cientistas se reuniram com a imprensa e líderes para o lançamento do Relatório Especial do Oceano e Criosfera nas Mudanças Climáticas em Mônaco. O relatório, publicado pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), mostra evidências alarmantes de que o aquecimento global já está sendo sentido por comunidades mais vulneráveis. O oceano está mais quente, mais ácido e menos produtivo. O derretimento de glaciais e coberturas de gelo continental está promovendo aumento do nível do mar, e eventos extremos estão se tornando mais frequentes.

O relatório foi aprovado por 195 representantes dos governos participantes do IPCC no dia 24 de Setembro. Nele se apresenta os benefícios de limitar o aquecimento global para o menor nível possível, indo de encontro das diretrizes do Acordo de Paris (2015). Atualmente, o aquecimento global já faz a superfície da Terra estar, em média, 1º acima da temperatura média do planeta na era pré-industrial.

O oceano e a criosfera - as partes congeladas do planeta, incluindo montanhas com cobertura de neve - tem papel fundamental na vida na Terra. Um total de 670 milhões de pessoas vivem em altas montanhas e mais 4 milhões vivem permanentemente na região do Ártico. 680 milhões de pessoas vivem próximos a linha de costa e 65 milhões vivem em pequenas ilhas. O relatório mostra evidências de que o aquecimento global está causando profundas consequências, não só para os ecossistemas, mas também para as pessoas que habitam esses meios.

Regiões de alta montanha são uma das mais vulneráveis ao aquecimento global. Créditos: National Geographic/Josh Maurer/LDEO

"O mar aberto, o Ártico, a Antártica e as altas montanhas parecem coisas muito distantes para muitas pessoas, mas nós dependemos desses meios e somos influenciados direta e indiretamente por eles de muitas formas: no tempo e clima, comida e água, energia, comércio, transporte, recreação e turismo, saúde e bem estar, cultura e identidade", disse Hoesung Lee, coordenador do IPCC. Segundo Lee, mesmo se reduzirmos as emissões, as consequências para estas pessoas ainda será desafiadora, mas ao menos será menos catastrófica para a parcela mais vulnerável.

As evidências apresentadas no relatório são resultado de cerca de 7 mil publicações científicas recentes que envolveram mais de 100 cientistas de 36 países. Os principais pontos apresentados foram:

  • Comunidades nas proximidades de altas montanhas estão mais vulneráveis e expostas a desastres naturais, como deslizamentos de terra, avalanches e inundações.
  • A retração dos glaciais já estão alterando a disponibilidade e qualidade de água, o que está também afetando comunidades mais distantes e atividades de agricultura e geração de energia.
  • A perda de gelo continental, junto com a expansão térmica, está contribuindo para o aumento do nível do mar em uma taxa mais acelerada. No século XX o nível médio do mar subiu cerca de 15cm. Atualmente a taxa de aumento está mais do que duas vezes maior, chegando a 3,6 mm por ano.
  • Mesmo se conseguirmos reduzir o aquecimento global a níveis menores que 2ºC, o nível do mar continuará a subir até cerca de 30-60 cm até 2100. Se o ritmo de aquecimento se mantiver como o atual, chegará a 60-110 cm em 2100.
  • O aumento do nível do mar, aliado a intensificação de ciclones tropicais e dos ventos em algumas regiões, estão contribuindo para o aumento da frequência de desastres nas zonas costeiras, como ressacas e inundações.
  • O aquecimento e acidificação dos oceanos, perda de oxigênio e mudanças no ciclo de nutrientes já estão afetando a distribuição e abundancia de vida marinha em áreas costeiras, oceano aberto e fundo oceânico.
  • Comunidades que dependem de recursos pesqueiros para a subsistência podem enfrentar sérios riscos nutricionais e de saúde alimentar.
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