COPs e o preço do carbono: viajar para 'salvar' o clima também polui
Estudo mostra que as viagens aéreas às COPs geraram 710 mil toneladas de CO2 equivalente em três décadas, expondo o dilema entre diplomacia climática, emissões crescentes e a necessidade de manter vozes vulneráveis presentes nas negociações globais.

As conferências do clima da ONU, as COPs, são o principal palco das negociações internacionais sobre aquecimento global. Foi nelas que nasceram acordos centrais, como o Protocolo de Kyoto e o Acordo de Paris. Mas um novo estudo publicado na Communications Sustainability chama atenção para uma contradição difícil de ignorar.
Ao estimar as emissões das viagens de delegados oficiais entre a COP1, em 1995, e a COP29, em 2024, os autores chegaram a um retrato incômodo. Nesse intervalo, os deslocamentos aéreos dos participantes analisados somaram 710.282 toneladas de CO2 equivalente. Mais do que isso: as emissões cresceram 2.500% no período, acompanhando a expansão do número de pessoas presentes nas negociações.
Quando a diplomacia climática decola
O estudo mostra que o problema não está apenas no avião em si, mas no tamanho que as COPs ganharam ao longo das décadas. Dos 367.747 participantes registrados entre a COP1 e a COP29, cerca de 54% eram delegados de Partes e Estados observadores incluídos na análise. Foi justamente esse grupo que respondeu pela conta de carbono calculada pelos autores.
Ainda assim, reduzir a discussão a “parar de viajar” seria simplificar demais. Os autores lembram que encontros presenciais continuam tendo valor diplomático: ajudam a construir confiança, facilitam negociações informais e podem abrir espaço para avanços políticos que seriam muito mais difíceis em formato exclusivamente virtual.

Em outras palavras, a viagem emite, mas a ausência de diálogo também pode ter custo alto para a agenda climática.
O que os números mostram sobre a pegada das COPs
Nem todas as COPs têm o mesmo peso por participante. Segundo o estudo, as emissões médias por delegado variaram de 2,77 tCO2-e, na COP9, na Itália, a 6,22 tCO2-e, na COP4, na Argentina. Entre os encontros com maior emissão por pessoa aparecem também Indonésia, Peru e México. Já entre os menores valores estão Alemanha, Polônia, Itália e Azerbaijão.
Esse retrato ajuda a entender por que o tema merece atenção pública:
- mais participantes significam, em geral, mais emissões totais;
- a localização da conferência influencia fortemente a pegada de carbono do evento;
- parte importante da conta depende de emissões indiretas da aviação, que ampliam o impacto climático além do combustível queimado;
- a discussão não é só ambiental, mas também logística, política e geográfica.
No próprio estudo, os autores testaram cenários diferentes para ver como a conta mudava. Quando retiraram emissões indiretas, como efeitos ligados a contrails e outros componentes da aviação, o total caiu bastante.

Isso mostra que a estimativa varia conforme o método adotado, mas a conclusão principal se manteve: a tendência ao longo das décadas foi de forte crescimento das emissões associadas às viagens.
Menos carbono, mas sem calar vozes importantes
É aqui que surge o ponto mais delicado. Se a solução fosse apenas escolher sedes mais próximas da Europa ou cortar participação de forma ampla, o risco seria aprofundar desigualdades já existentes. O estudo observa que quase metade das COPs ocorreu na Europa e Ásia Central, e lembra que barreiras de visto e custos financeiros já dificultam a presença de países de baixa e média renda em muitos desses encontros.
Por isso, a conclusão dos autores é menos simplista do que parece à primeira vista. Eles defendem repensar a escala e a composição das delegações, priorizando quem é mais afetado pela crise climática e limitando presenças que pouco contribuem para o objetivo das negociações.
Ao mesmo tempo, destacam que sediar a COP30 no Brasil tende a gerar emissões elevadas de viagem, mas também amplia a visibilidade latino-americana nas negociações. No fim, o desafio não é escolher entre clima e inclusão, e sim encontrar um formato de conferência que polua menos sem esvaziar as vozes que mais precisam ser ouvidas.
Referência da notícia
The carbon footprint of air travel to UN climate conferences has increased 25-fold over three decades. 13 de março, 2026. Williams, J.T.W., Colagiuri, P., Beggs, P.J. et al.