Copernicus inicia produção da nova reanálise climática ERA6

O programa europeu Copernicus iniciou a produção da ERA6, nova geração de reanálises climáticas globais. O conjunto de dados promete maior resolução e mais observações que a atual ERA5.

Prevista para 2027, a ERA6 deve ser a nova referência global de reanálises. Créditos: Montagem elaborada por Meteored, com imagens do ECMWF.
Prevista para 2027, a ERA6 deve ser a nova referência global de reanálises. Créditos: Montagem elaborada por Meteored, com imagens do ECMWF.

O Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF) anunciou recentemente o início da produção da ERA6, a próxima geração de reanálises climáticas do programa europeu Copernicus. O novo conjunto de dados deverá substituir gradualmente a ERA5, uma das reanálises mais consolidadas e utilizadas ao redor do mundo, trazendo avanços importantes na representação do sistema climático global.

A nova reanálise será produzida em fases, com as primeiras décadas de dados previstas para serem disponibilizadas no final de 2027. O projeto é resultado de quase uma década de desenvolvimento científico e tecnológico e promete oferecer reconstruções horárias do clima global com resolução significativamente mais alta e maior número de variáveis.

Quando estiver completa, a ERA6 deverá cobrir mais de 75 anos de condições atmosféricas, consolidando-se como uma das bases de dados climáticos mais detalhadas já produzidas. A seguir, entenda o que é uma reanálise e quais são os avanços da ERA6 em relação à ERA5.

O que é uma reanálise?

Reanálises climáticas são conjuntos de dados que combinam observações históricas com modelos numéricos de previsão do tempo para reconstruir, de forma consistente, o estado da atmosfera e de outros componentes do sistema terrestre ao longo do tempo.

Essas reconstruções integram milhões de medições provenientes de satélites, estações meteorológicas, navios, aviões e bóias oceânicas, que são assimiladas (incorporadas) em um modelo físico da atmosfera. O resultado é uma representação contínua e global do clima, geralmente disponível em intervalos horários, amplamente utilizada em estudos climáticos e meteorológicos.

Temperatura em 9 de janeiro de 2025 a partir dos dados da renálise ERA5. Créditos: Copernicus/ECMWF.
Temperatura em 9 de janeiro de 2025 a partir dos dados da renálise ERA5. Créditos: Copernicus/ECMWF.

Esse tipo de produto é fundamental para diversas áreas da ciência do clima e da meteorologia, uma vez que é impossível ter observações cobrindo o território global, afinal, muitos lugares são remotos e inacessíveis.

Embora sejam produtos de modelos, na prática essas informações são utilizadas como dados para estudar variabilidade climática, investigar eventos extremos, avaliar tendências de longo prazo e também como referência para validar modelos climáticos e, mais recentemente, no treinamento de modelos de previsão baseados em inteligência artificial.

Quais os avanços da reanálise ERA6?

Uma das mudanças mais importantes da ERA6 será o aumento da resolução espacial. Enquanto a ERA5 possui grade atmosférica de cerca de 31 km, a nova geração deverá alcançar aproximadamente 14 km.

Diferença de resolução espacial entre ERA5 (31 km) e ERA6 (14 km) no painel superior, e entre Era-Interim (80 km), ERA5 e ERA6, no painel inferior. Créditos: Adaptado de ECMWF.
Diferença de resolução espacial entre ERA5 (31 km) e ERA6 (14 km) no painel superior, e entre Era-Interim (80 km), ERA5 e ERA6, no painel inferior. Créditos: Adaptado de ECMWF.

Esse refinamento permitirá representar com mais realismo fenômenos meteorológicos como ciclones tropicais e sistemas de mesoescala, como tempestades organizadas e processos costeiros. A melhoria também deve contribuir para uma representação mais precisa das interações entre superfície terrestre e atmosfera.

Outra inovação importante é a ampliação do conjunto de observações utilizadas na assimilação de dados. A ERA6 incorporará registros históricos recuperados ou reprocessados, incluindo medições antigas de satélite (anteriores a 1979) e arquivos observacionais revisados. Com isso, o número de observações assimiladas poderá aumentar cerca de 50% e, em alguns casos, mais do que dobrar em relação à ERA5.

Para ilustrar o potencial da nova reanálise, os cientistas do ECMWF divulgaram uma reconstrução do eclipse solar de 29 de março de 2006 observado sobre o Golfo da Guiné, na costa ocidental da África.

A imagem não foi registrada por satélite, mas simulada a partir das condições atmosféricas reconstruídas pelo ERA6.

Os pesquisadores calcularam como o fenômeno teria sido visto pelo instrumento FCI do satélite Meteosat Third Generation, que ainda não operava na época.

Simulação baseada no ERA6 mostrando eclipse de março de 2006. Créditos: Reprodução/ECMWF/Philippe Lopez.
Simulação baseada no ERA6 mostrando eclipse de março de 2006. Créditos: Reprodução/ECMWF/Philippe Lopez.

Outras melhorias incluem, ainda:

  • Melhor acesso aos dados
  • Acoplamento oceano-atmosfera
  • Melhor representação da estratosfera

Com esses avanços, a ERA6 inaugura uma nova geração de reanálises climáticas, oferecendo uma reconstrução do sistema terrestre mais detalhada e consistente e reforçando seu papel como referência global para o estudo do clima e o desenvolvimento de novas ferramentas de previsão.

Referência da notícia

Copernicus Climate’s ERA6 reanalysis production starts, publicado em 6 de março de 2026 por ECMWF.