Como o Brasil usa hidrelétricas para manter emissões de carbono entre as mais baixas do mundo
Pesquisa revela que, apesar das críticas ambientais, hidrelétricas no Brasil apresentam menor emissão de gases de efeito estufa em comparação com outras tecnologias de geração e armazenamento de energia elétrica.

A busca por soluções que reduzam as emissões de gases de efeito estufa sem comprometer a segurança energética é um dos grandes desafios da transição climática global. No Brasil, essa resposta pode estar em uma fonte já amplamente utilizada, mas frequentemente alvo de controvérsias: as hidrelétricas.
Um estudo recente publicado na revista Energies, conduzido por pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Metrologia da PUC-Rio em parceria com a consultoria PSR, indica que as hidrelétricas brasileiras apresentam o menor impacto climático entre as principais tecnologias de geração e armazenamento de eletricidade disponíveis atualmente.
Os resultados chamam atenção porque esse tipo de usina costuma ser criticado por seus impactos socioambientais. A construção de barragens pode alterar paisagens, afetar ecossistemas e provocar o deslocamento de comunidades. Ainda assim, sob a ótica climática, o desempenho é mais positivo do que se costuma supor, inclusive quando comparado a fontes consideradas mais limpas.
Falhas nas comparações tradicionais
O Brasil já é reconhecido mundialmente por sua matriz elétrica majoritariamente renovável, com cerca de 55% a 60% da energia proveniente de hidrelétricas. Apesar disso, dúvidas persistem sobre o real impacto ambiental dessas estruturas.
Segundo os pesquisadores, parte dessa desconfiança se deve a falhas metodológicas em estudos anteriores. Muitas análises utilizam métricas agregadas que não consideram o momento e o local em que os impactos ambientais ocorrem ao longo do ciclo de vida das tecnologias.
Essa abordagem pode mascarar picos importantes de poluição, como emissões concentradas na fase de construção ou relacionadas à produção de materiais em diferentes países. Como resultado, algumas fontes acabam sendo avaliadas de forma imprecisa.
Armazenamento e seus desafios
Outro ponto central da pesquisa envolve o armazenamento de energia, um dos principais desafios da transição energética. Fontes como solar e eólica são intermitentes, variando ao longo do dia e das estações, o que exige soluções eficientes para armazenar eletricidade.

As hidrelétricas reversíveis aparecem como uma alternativa relevante nesse cenário. Elas utilizam energia excedente para bombear água a reservatórios superiores, liberando-a posteriormente para gerar eletricidade em momentos de maior demanda. No entanto, no Brasil, esse modelo apresentou emissão de 0,117 kg de CO₂ equivalente por kWh, associada ao processo de bombeamento.
O estudo também avaliou baterias de íon-lítio, que registraram emissões ainda maiores, cerca de 0,142 kg de CO₂ equivalente por kWh. Nesse caso, o principal impacto ocorre durante o carregamento, evidenciando que o desempenho ambiental depende diretamente da matriz elétrica utilizada.
Caminhos para o futuro energético
A análise aponta que o Brasil possui condições privilegiadas para consolidar um sistema energético de baixo impacto climático. As hidrelétricas desempenham papel estratégico ao manter a pegada de carbono da eletricidade nacional significativamente inferior à de países dependentes de combustíveis fósseis.
Os pesquisadores defendem que a discussão pública precisa diferenciar os tipos de impacto ambiental. Enquanto os efeitos sociais e ecológicos exigem atenção contínua, os dados indicam que, do ponto de vista climático, as hidrelétricas brasileiras apresentam desempenho bastante favorável.
Referências da notícia
The Conversation. Energia hidrelétrica brasileira lidera em baixo impacto climático. 2026