Ciclone mais forte da história atinge o Moçambique

Após destruição e mais de 1.000 mortes deixados em março pelo ciclone tropical Idai entre Moçambique, Zimbabué e Malawi, um outro ciclone mais intenso atingiu o norte de Moçambique nesta semana, provocando mais mortes.

Bruno César Capucin Bruno César Capucin 28 Abr. 2019 - 13:24 UTC
Ciclone tropical Kenneth que atingiu o norte de Moçambique na quinta-feira (25). Fonte: WMO e Météo-France

Não é raro o registro de ciclones tropicais no sudoeste do Índico, onde estão os países de Madagáscar e o Moçambique. Em média, 10 depressões ou tempestades tropicais se formam anualmente nessa região do oceano. Em alguns casos, os sistemas possuem força suficiente para alcançar o continente africano, sobretudo o Moçambique. No entanto, ciclones tropicais de categoria 3, como o Idai no mês passado, e de categoria 4 como o Kenneth nesta semana, não são comuns de serem registrados.

Em geral, a temporada de ciclones tropicais no Índico segue a sazonalidade do Sol e as mudanças na circulação geral da atmosfera (sistema de monção). Durante o verão do Hemisfério Sul, o cavado de monção (monsoon trough em inglês) se posiciona mais ao sul, favorecendo a formação dos ciclones tropicais na bacia do Índico sul. O cavado de monção, é a parte da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) influenciada por ventos de monção, sendo uma região de alta vorticidade ciclônica do vento. As baixas pressões associadas sobre águas quentes, desenvolvem fortes trovoadas e, portanto, é um mecanismo eficiente para a gênese dos ciclones do Índico.

O sistema de baixa pressão precursor do ciclone tropical Kenneth, se relacionou com o cavado de monção mencionado acima. Além disso, há indícios de que a fase 2 da Oscilação Madden-Julian em plena intensificação, também exerceu influência durante o desenvolvimento do sistema.

A perturbação tropical (de 14 a 21 de abril) evoluiu para uma depressão tropical no dia 22, após ter encontrado condições favoráveis. Contudo, poucas horas depois no próprio dia 22, já era reconhecida como uma tempestade tropical, recebendo o nome de Kenneth. Entre os dias 22 e 25, a tempestade evoluiu gradativamente, até alcançar a categoria 4 para um ciclone tropical, a mesma categoria em que estava ao atingir o litoral norte do Moçambique na última quinta-feira (25). Kenneth, foi o ciclone tropical mais forte da história no Moçambique.

Os impactos

Com relação aos impactos da passagem de Kenneth, até o momento do preparo desta publicação, cerca de 6 mortes foram reportadas. Segundo dados do governo local, 16 mil pessoas foram afetadas pelo ciclone. Habitações, estruturas e árvores sofreram colapsos com os ventos na ordem dos 215 km/h.

Felizmente, a região do landfall (momento que o olho do ciclone entra no continente) de Kenneth se deu numa área menos povoada do Moçambique, se comparado a área do landfall do Idai, em março. Após a trágica experiência com o Idai, as autoridades realizaram uma evacuação em massa dos locais que estavam na rota de Kenneth. Com isso, o número de mortes provavelmente será menor.

Apesar da medida de evacuação preservar vidas, a destruição dos povoados por ventos e inundações são inevitáveis. A baixa pressão remanescente de Kenneth ainda provoca precipitação no Moçambique do norte, podendo agravar a situação das regiões afetadas com os fortes ventos e chuvas dos últimos dias.

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