China muda hábitos de consumo e pressiona pecuária brasileira por carne sem desmatamento na Amazônia

Importadores chineses começam a exigir carne bovina livre de desmatamento da Amazônia, sinalizando mudança no consumo e criando pressão inédita sobre a pecuária brasileira por maior rastreabilidade ambiental.

Em 2023, China assinou um compromisso conjunto com o Brasil para acabar com o desmatamento ilegal impulsionado pelo comércio. Crédito: Carla Moura/Wikimedia Commons
Em 2023, China assinou um compromisso conjunto com o Brasil para acabar com o desmatamento ilegal impulsionado pelo comércio. Crédito: Carla Moura/Wikimedia Commons

A relação comercial entre China e Brasil pode estar entrando em uma nova fase, impulsionada por mudanças no comportamento de consumidores chineses e pela crescente demanda por produtos sustentáveis. Um movimento liderado por importadores da cidade chinesa de Tianjin promete pagar mais por carne bovina brasileira certificada como livre de desmatamento, criando uma pressão inédita sobre a cadeia pecuária ligada à Amazônia.

A iniciativa é liderada por Xing Yanling, presidente da Associação da Indústria de Carnes de Tianjin, responsável por representar importadores que concentram cerca de 40% das compras chinesas de carne bovina brasileira. Durante uma visita recente à Amazônia, Xing relatou ter ficado impressionada com a dimensão da floresta e publicou nas redes sociais que se sentiu “envolvida por dezenas de milhares de tons de verde”.

Sob sua liderança, os importadores de Tianjin assumiram o compromisso de adquirir 50 mil toneladas de carne bovina certificada e livre de desmatamento até o fim deste ano. O volume representa aproximadamente 4,5% das exportações brasileiras de carne bovina destinadas à China em 2026 e pode indicar uma mudança importante no mercado internacional de commodities agrícolas.

Consumidores mais exigentes

A decisão desafia uma percepção consolidada entre produtores rurais brasileiros de que a China se preocupa apenas com preços baixos. O novo cenário sugere que uma parcela crescente dos consumidores chineses, especialmente os de maior renda, passou a valorizar critérios ambientais e de rastreabilidade na hora de comprar alimentos.

Compromisso chinês de pagar mais por carne bovina sustentável do Brasil pode sinalizar uma mudança relevante na relação entre comércio, consumo e desmatamento. Crédito: Divulgação/IRD
Compromisso chinês de pagar mais por carne bovina sustentável do Brasil pode sinalizar uma mudança relevante na relação entre comércio, consumo e desmatamento. Crédito: Divulgação/IRD

Nos últimos anos, o governo chinês também passou a adotar medidas ligadas à sustentabilidade. Em 2019, Pequim alterou sua legislação florestal para proibir o comércio de madeira ilegal. Em 2023, China e Brasil assinaram um compromisso conjunto para combater o desmatamento ilegal associado ao comércio bilateral. Além disso, a estatal chinesa COFCO anunciou metas para eliminar o desmatamento de sua cadeia de suprimentos.

Especialistas avaliam que a carne bovina é um setor estratégico para iniciar esse processo. Segundo André Vasconcelos, da plataforma Trase, que monitora impactos ambientais de cadeias produtivas globais, a carne brasileira está entre as commodities agrícolas mais associadas ao desmatamento importado pela China. Dados do MapBiomas mostram que a Amazônia perde centenas de milhares de hectares de floresta todos os anos e que cerca de 90% das áreas desmatadas acabam convertidas em pastagens. Esse cenário transformou a pecuária em um dos principais alvos de pressão ambiental internacional.

Certificação e rastreabilidade

A carne exportada pelo projeto de Tianjin receberá o selo “Beef on Track”, desenvolvido pela ONG brasileira Imaflora. A certificação estabelece diferentes níveis de conformidade ambiental e trabalhista, além de avaliar a capacidade de rastrear a origem do gado ao longo da cadeia produtiva.

Os importadores chineses afirmaram estar dispostos a pagar até 10% a mais por carne proveniente de frigoríficos capazes de comprovar que seus fornecedores não possuem ligação com desmatamento, legal ou ilegal, nem com casos de trabalho escravo.

A rastreabilidade também atende a preocupações ligadas à segurança alimentar. Consumidores chineses já estão acostumados a utilizar códigos QR em alimentos para verificar sua origem. Apesar do entusiasmo de parte do mercado, especialistas alertam que o Brasil ainda enfrenta obstáculos importantes para garantir a confiabilidade das informações. O sistema nacional de rastreamento de gado é frequentemente criticado por permitir fraudes conhecidas como “lavagem de gado”, prática usada para ocultar irregularidades ambientais na cadeia de produção.

Resistência do setor e incertezas

Produtores rurais enxergam o movimento com mistura de expectativa e cautela. Durante a visita da delegação chinesa à fazenda Carioca, em Castanhal, no Pará, o pecuarista Altair Burlamaqui percebeu que havia uma oportunidade de agregar valor à carne brasileira por meio da preservação ambiental.

Segundo ele, os chineses demonstraram interesse em transformar a carne bovina amazônica em um produto premium associado à proteção da floresta. Para o produtor, existe um público consumidor disposto a pagar mais por sustentabilidade, possivelmente maior do que o mercado brasileiro para esse tipo de produto.

As incertezas aumentam porque a China também endureceu recentemente o controle sobre importações de carne bovina, impondo cotas para proteger sua indústria nacional. Ainda assim, organizações ambientais acreditam que o avanço da rastreabilidade pode transformar a preservação da Amazônia em vantagem competitiva para o Brasil no mercado internacional.

Referências da notícia

CNN Brasil. Como mudanças nos hábitos dos chineses podem proteger a floresta amazônica. 2026

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