Bahia cria refúgio para mico-leão-da-cara-dourada, animal ameaçado pela destruição da Mata Atlântica
Novo espaço inaugurado em Ilhéus busca recuperar micos-leões-de-cara-dourada feridos pela urbanização e pela destruição da Mata Atlântica, além de fortalecer ações de preservação da espécie símbolo do sul da Bahia.

A Bahia deu um passo importante para a preservação da fauna brasileira com a inauguração do primeiro centro de reabilitação dedicado ao mico-leão-de-cara-dourada, espécie ameaçada de extinção e encontrada exclusivamente na Mata Atlântica do sul do estado. O novo espaço foi instalado em Ilhéus, município que concentra parte significativa da população remanescente do primata e que vem enfrentando os impactos do crescimento urbano sobre os habitats naturais.
A criação do centro surge em resposta ao aumento de ocorrências envolvendo os animais em áreas urbanizadas. Nos últimos anos, moradores de Ilhéus passaram a registrar micos circulando em supermercados, feiras e bairros residenciais, além de utilizarem fios elétricos para se deslocar entre fragmentos de floresta. A aproximação com a cidade, porém, tem resultado em mortes por eletrocuss��o, atropelamentos e ataques de cães domésticos.
Até então, não existia na região uma estrutura especializada para receber esses animais feridos ou deslocados. Segundo o biólogo Leonardo Oliveira, pesquisador da espécie há mais de duas décadas e integrante da equipe do novo centro, a presença frequente dos micos em ambientes urbanos gera uma falsa sensação de abundância. Para ele, o fenômeno não indica aumento populacional, mas sim a redução contínua das áreas naturais disponíveis para a sobrevivência da espécie.
Espécie de macaco perdeu quase 60% da população
O mico-leão-de-cara-dourada, conhecido cientificamente como Leontopithecus chrysomelas, é considerado um dos primatas mais ameaçados da Mata Atlântica. Restrito a uma pequena faixa do sul baiano, o animal sofreu uma redução drástica de habitat nas últimas três décadas.

Dados de uma reavaliação populacional divulgada em 2024 apontam que a área de ocorrência da espécie encolheu 42% desde 1992, passando de aproximadamente 22,5 mil quilômetros quadrados para cerca de 13 mil km². Como consequência direta da perda de território, a população estimada caiu quase 60%, passando de cerca de 50 mil indivíduos para aproximadamente 24 mil atualmente.
Especialistas atribuem o declínio principalmente ao avanço urbano e à substituição das tradicionais áreas de cacau cultivadas no sistema agroflorestal conhecido como “cabruca”. Nesse modelo, o cacau é plantado sob a sombra de árvores nativas, formando corredores ecológicos importantes para diversas espécies da Mata Atlântica, incluindo os micos-leões-de-cara-dourada. A mudança reduz drasticamente a cobertura florestal e dificulta o deslocamento dos animais entre os fragmentos de mata. Além disso, o cacau representa uma das principais fontes de alimento da espécie, tornando a transformação do sistema produtivo ainda mais preocupante para os ambientalistas.
Centro quer recuperar animais e ampliar proteção
O novo centro de reabilitação foi inaugurado em 26 de março, data em que Ilhéus celebra oficialmente o Dia Municipal do Mico-Leão-de-Cara-Dourada. A homenagem coincide com o Dia Nacional do Cacau e simboliza a relação histórica entre a conservação da espécie e a manutenção das áreas de cultivo agroflorestal da região.
Instalado na Universidade Estadual de Santa Cruz, o espaço possui capacidade inicial para atender até três grupos de micos simultaneamente, com previsão de ampliação para até oito grupos no futuro. A proposta é oferecer atendimento veterinário, reabilitação física e readaptação comportamental para animais vítimas de acidentes ou retirados de áreas urbanas. Após o tratamento, os micos deverão ser transferidos para regiões mais preservadas e afastadas dos centros urbanos, onde possam voltar a viver em segurança.
Além do centro de reabilitação, Ilhéus também adotou o mico-leão-de-cara-dourada como mascote oficial da cidade. A medida faz parte de uma estratégia mais ampla para conscientizar a população sobre a importância da conservação da Mata Atlântica e reforçar o vínculo entre a economia cacaueira tradicional e a sobrevivência de uma das espécies mais emblemáticas da biodiversidade brasileira.
Referências da notícia
Mongabay. Bahia abre centro de reabilitação para salvar o raro mico-leão-de-cara-dourada. 2026
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