Animal simbólico da fauna brasileira enfrenta risco real de extinção na Amazônia
Secas extremas, degradação ambiental e redução do nível dos rios ameaçam a sobrevivência do boto-cor-de-rosa, símbolo cultural da Amazônia e espécie já classificada como em perigo de extinção.

Símbolo marcante do imaginário popular brasileiro e personagem central de uma das mais conhecidas histórias amazônicas, o boto-cor-de-rosa enfrenta uma ameaça concreta à sua sobrevivência. O animal, que durante séculos habitou histórias e tradições ribeirinhas, agora se vê diante de um cenário preocupante provocado por mudanças ambientais severas.
Nos últimos anos, a intensificação das secas na Amazônia tem causado a redução drástica do nível dos rios, afetando diretamente a fauna aquática. A combinação entre estiagens prolongadas, degradação ambiental e pressão humana tem resultado na morte de dezenas de botos, acendendo um sinal de alerta entre pesquisadores e órgãos de conservação.
O boto-cor-de-rosa, cujo nome científico é Inia geoffrensis, está classificado como “em perigo” na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). A espécie, altamente adaptada aos rios amazônicos, sofre com a perda de habitat e a diminuição de presas, fatores que comprometem sua reprodução e sobrevivência.
Adaptação única às águas amazônicas
Apesar da aparência semelhante à dos golfinhos marinhos, o boto-cor-de-rosa é um mamífero exclusivamente de água doce e apresenta características singulares. Sua anatomia foi moldada para enfrentar as condições específicas dos rios da Amazônia, especialmente durante o período de cheias, quando a floresta fica alagada.
Na cabeça, uma estrutura conhecida como “melão” desempenha papel essencial nesse processo, ajudando na emissão e recepção dos sinais sonoros. Essa adaptação garante vantagem na caça e na navegação em meio à vegetação submersa e aos canais estreitos formados durante as cheias.
Diferenças de comportamento e importância ecológica
O comportamento do boto-cor-de-rosa também varia de acordo com o sexo. Fêmeas e filhotes costumam permanecer em lagos e pequenos afluentes, onde encontram maior proteção contra predadores e correntezas fortes. Já os machos preferem os grandes rios, onde disputam território e acesso às fêmeas.

Considerado o maior golfinho de água doce do mundo, o boto pode atingir até 2,5 metros de comprimento e pesar cerca de 200 quilos. Sua presença é fundamental para o equilíbrio ecológico dos rios amazônicos, atuando como predador de topo e contribuindo para o controle das populações de peixes.
No entanto, a combinação de secas severas, poluição, pesca predatória e fragmentação de habitats tem reduzido drasticamente suas condições de sobrevivência. Em períodos de estiagem extrema, lagos e canais isolados secam rapidamente, aprisionando indivíduos e dificultando sua migração.
Entre o mito e a ameaça real
Além de sua relevância ecológica, o boto ocupa lugar central no imaginário amazônico. Uma das histórias mais conhecidas conta que, durante a noite, o animal se transforma em um homem elegante vestido de branco, participa de festas ribeirinhas e seduz mulheres antes de retornar ao rio ao amanhecer.
Essa narrativa atravessou gerações e ajudou a consolidar o boto como um dos personagens mais emblemáticos da cultura brasileira. Em muitas comunidades, a figura do animal mistura respeito, mistério e admiração.
Hoje, porém, a fantasia dá lugar à preocupação. Especialistas alertam que, sem medidas eficazes de preservação e políticas ambientais consistentes, o boto-cor-de-rosa pode desaparecer não apenas dos rios amazônicos, mas também do patrimônio cultural do Brasil. O desafio agora é transformar o alerta científico em ações concretas capazes de garantir a sobrevivência desse ícone da biodiversidade nacional.
Referências da notícia
TNH1. Animal lendário do folclore brasileiro corre sérios riscos de extinção na Amazônia. 2026