A temporada de dust devil

As condições típicas do inverno como a estiagem e por vezes às tardes quentes na maior parte do país, propiciam a formação dos redemoinhos de poeira em regiões de solo árido e sem cobertura vegetal. Embora sejam inofensivos, eles podem gerar inconvenientes.

Bruno César Capucin Bruno César Capucin 18 Ago. 2019 - 13:08 UTC
Ocorrência de dust devil sobre um solo seco e sem vegetação.

Um redemoinho de poeira (dust devil) é um fenômeno observado tipicamente em dias quentes, com ventos calmos e sobre um solo seco e desprovido de vegetação (comuns em desertos). Eles apresentam estruturas que variam de pequeno (meio metro de largura e alguns metros de altura) a grande porte (superior a 10 metros de largura e mais de 1000 metros de altura) e duram poucos minutos. Devido a essas características espaciais e temporais, os redemoinhos de poeira se enquadram na microescala da meteorologia.

Em geral, eles são inofensivos, mas em algumas ocasiões mais raras podem se tornar grandes o suficiente para representar alguma ameaça as pessoas e as propriedades (destelhamento por exemplo). Praticantes de esportes aéreos (parapente, asa-delta etc) devem se atentar para este tipo de formação, visto que existem riscos para a segurança do voo. A única semelhança entre um dust devil e um tornado é o fato de que ambos se tratam de uma coluna giratória de ar em contato com a superfície, pois os processos físicos de formação e a intensidade diferem muito entre um e outro. O tornado se forma durante o desenvolvimento de uma nuvem de tempestade, enquanto o dust devil é gerado a partir do forte aquecimento da superfície e do ar imediatamente acima.

Se você já presenciou um redemoinho de poeira, certamente era um dia quente, seco, com poucos cumulus ou então nenhuma nuvem no céu. Isso é essencialmente necessário para gerar um forte aquecimento de um solo árido e sem vegetação (tempo 1 da figura). Com a superfície extremamente quente, o calor é transferido para a camada de ar logo acima. O ar quente se torna menos denso e sobe, gerando uma corrente ascendente e uma pequena área de baixa pressão na superfície (tempo 2).

Uma vez criada a zona de baixa pressão, o ar ao redor é atraído para o centro da mesma, a fim de repor o ar que está ascendendo. Mas o cisalhamento horizontal do vento produz o que os meteorologistas chamam por vorticidade (tempo 3). Desta forma, o ar sobe em rotação levantando a poeira e os detritos da superfície, o que permite a visualização do redemoinho. A medida que o ar mais quente chega na baixa pressão, o sistema se intensifica e se auto-sustenta.

Conforme o ar sobe, ele se resfria e perde a capacidade de continuar subindo na parte mais alta do redemoinho. A partir deste momento, o ar começa a descer envolta da circulação quente do vórtice e ajuda a manter o sistema estável. Enquanto houver ar quente entrando no redemoinho, o sistema estará ativo. Caso o vórtice passe sobre uma superfície mais fria ou comece a receber ventos mais frios em seu núcleo, haverá um colapso na estrutura do sistema até que haja sua total dissipação.

A intensidade de um redemoinho de poeira é altamente variável. A maioria dos vórtices são de pequeno porte (0,9 metros de diâmetro) e fracos, com ventos máximos em média de 70 km/h e duram menos de 1 minuto. Se as condições forem favoráveis a intensificação, podem atingir diâmetros na ordem de 90 metros e ventos superiores a 100 km/h, durando cerca de 20 minutos.

No Brasil, o inverno corresponde a estação seca na maior parte do país. Nesta época, é comum uma estiagem duradoura em vários Estados. Algumas regiões podem ficar mais de 2 meses sem receber uma gota de chuva, o que agrava a aridez do solo. Um solo muito seco, sem vegetação somado às tardes quentes de inverno (favorecidas pela ausência de massas de ar frio e de nuvens no céu) são ingredientes para a formação de um dust devil. Outro cenário potencial para formar o fenômeno é quando o solo e o ar logo acima são superaquecidos pelo fogo durante uma queimada.

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