A alimentação de metade do planeta em perigo: como um episódio extremo do El Niño ameaça o arroz

O fortalecimento do El Niño, combinado com o aquecimento global e o aumento dos custos de produção, coloca em risco a safra mundial de arroz e alimenta receios de uma nova crise alimentar.

O arroz é uma das culturas que mais exigem água.
O arroz é uma das culturas que mais exigem água.

O fenômeno El Niño em desenvolvimento — que pode atingir intensidade forte ou até mesmo muito forte nos próximos meses — volta a acender alertas sobre a segurança alimentar global. O arroz está entre as culturas mais vulneráveis; é um alimento básico para mais da metade da população mundial, e sua produção depende de um equilíbrio delicado entre disponibilidade de água, temperaturas moderadas e estabilidade comercial.

As previsões climáticas indicam que o fenômeno, já estabelecido sobre o Oceano Pacífico tropical, deve se intensificar no final do ano. Quando isso ocorre, os padrões de precipitação sofrem alterações drásticas: algumas regiões recebem muito mais chuva do que o habitual, enquanto outras enfrentam secas prolongadas e ondas de calor mais intensas.

O cultivo que mais pode sentir o impacto

Ao contrário de outros grãos, o arroz é particularmente vulnerável a um evento forte de El Niño. Enquanto a produção global de trigo frequentemente compensa as perdas em uma região com boas colheitas em outras, a situação do arroz é bem diferente.

A maior parte da oferta mundial concentra-se na Ásia, e apenas uma pequena fração entra no comércio internacional. Isso significa que qualquer queda simultânea na produção em vários países pode afetar rapidamente a oferta disponível e provocar fortes aumentos de preços.

A Índia e a China produzem mais da metade do arroz mundial, enquanto em países como Bangladesh, Vietnã e Camboja esse cereal representa mais de 50% das calorias consumidas diariamente pela população.

Por esse motivo, qualquer interrupção na produção vai além do setor agrícola e pode se tornar um grave problema econômico e social.

Mais calor e menos água: uma combinação preocupante

Especialistas alertam que, diferentemente de eventos anteriores, há um fator adicional em jogo desta vez: as mudanças climáticas.

Agravando o déficit de chuvas característico do El Niño, observa-se uma elevação persistente das temperaturas, o que aumenta o estresse sobre as culturas e acelera a perda de umidade do solo e dos reservatórios de irrigação.

Um aumento sustentado das temperaturas agrava o déficit de precipitação característico do El Niño.
Um aumento sustentado das temperaturas agrava o déficit de precipitação característico do El Niño.

O arroz é uma das culturas que mais consomem água. Quase três quartos da produção mundial provêm de campos alagados, onde a água não apenas favorece o crescimento das plantas, mas também controla ervas daninhas, facilita a formação dos grãos e ajuda a reduzir o estresse causado pelo calor extremo.

Embora existam variedades capazes de se desenvolver com menos água, elas geralmente apresentam produtividade mais baixa. Por isso, diversos programas científicos trabalham para incorporar essa resistência à seca às variedades de alta produtividade amplamente utilizadas pelos agricultores.

O risco de uma nova escalada de preços

A preocupação não se limita apenas à produção. O mercado internacional de arroz também apresenta características que amplificam qualquer crise.

A maior parte do grão produzido permanece nos países onde é cultivada, e menos de 10% é, tipicamente, comercializado internacionalmente. Consequentemente, quando um ou mais grandes exportadores restringem suas vendas externas, os preços reagem rapidamente.

Algo semelhante ocorreu em 2023, quando a Índia restringiu as exportações para proteger seu mercado interno — uma decisão que provocou uma forte alta nos preços internacionais. Embora as perspectivas sejam atualmente mais favoráveis, graças aos estoques acumulados pelo país e à suspensão das restrições comerciais, esse equilíbrio poderá ser rompido caso o El Niño cause perdas significativas à próxima safra.

A experiência passada mostra que situações desse tipo podem escalar rapidamente. Durante a crise alimentar de 2007–2008, uma combinação de restrições à exportação e compras motivadas pelo pânico — impulsionadas pelo receio de escassez — fez com que os preços internacionais do arroz quase triplicassem. As consequências incluíram agitação social em dezenas de países e até mesmo uma grave crise política no Haiti.

Mais uma vez, os países mais vulneráveis são aqueles que dependem de importações para alimentar suas populações, incluindo as Filipinas e várias nações da África Ocidental.

Adaptar-se antes do impacto

Diante desse cenário, produtores e pesquisadores buscam reduzir riscos por meio de novas estratégias de manejo agrícola.

Na Indonésia, por exemplo, muitos agricultores estão antecipando o plantio para tentar se prevenir contra os efeitos mais severos do fenômeno climático. Ao mesmo tempo, diversos estudos mostram que certas variedades de arroz conseguem utilizar a água de forma mais eficiente, sem comprometer significativamente a produtividade ou a qualidade dos grãos.

produtores e pesquisadores buscam reduzir riscos por meio de novas estratégias de manejo agrícola.
produtores e pesquisadores buscam reduzir riscos por meio de novas estratégias de manejo agrícola.

Existem também práticas agronômicas capazes de reduzir o consumo de água, como espaçar os períodos de inundação dos arrozais ou adiar parte da irrigação durante estágios específicos do desenvolvimento da cultura. No entanto, especialistas alertam que reduzir excessivamente os níveis de água pode deixar as plantas mais expostas a temperaturas extremas justamente durante a floração — uma das fases mais sensíveis do seu desenvolvimento.

Um desafio que vai além da agricultura

Especialistas concordam que lidar com um episódio intenso de El Niño exigirá muito mais do que inovações no campo.

Será fundamental aprimorar os sistemas de previsão climática, manter o investimento em pesquisa e promover a cooperação internacional para evitar restrições comerciais que poderiam agravar uma possível escassez.

Embora o mundo de hoje disponha de mais ferramentas para enfrentar tais fenômenos do que há algumas décadas, a próxima safra de arroz será um teste decisivo.

O que acontecer nos principais países produtores não apenas influenciará o preço de um dos alimentos mais consumidos do planeta, mas também afetará a segurança alimentar e a estabilidade econômica de milhões de pessoas.

Referência da notícia

Butardo, V. (2026). A severe El Niño could threaten something essential to half of humanity – rice.