Sonda Lucy da NASA encontra asteroide com formato de amendoim e em movimento circular

A passagem próxima oferece uma visão detalhada de como um pequeno asteroide pode registrar colisões, remontagens, alterações minerais impulsionadas pela água e movimentos superficiais posteriores.

O formato de amendoim do asteroide provavelmente se formou quando fragmentos de um corpo maior despedaçado se reagruparam.
O formato de amendoim do asteroide provavelmente se formou quando fragmentos de um corpo maior despedaçado se reagruparam.

A missão Lucy, da NASA, enviou os primeiros dados científicos obtidos em close-up do asteroide Donaldjohanson, um pequeno objeto no cinturão principal de asteroides que parece ser um fragmento de um corpo maior.

Uma primeira visão incomum

Os novos resultados, publicados na revista Science mostram um asteroide alongado com rotação caótica, superfície remodelada e evidências de água antiga.

A passagem da sonda Lucy proporcionou aos pesquisadores a primeira visão detalhada de um desses fragmentos, revelando um pequeno objeto com formato de amendoim, em vez de um simples corpo rochoso.

É provável que o asteroide Donaldjohanson pertença à família de asteroides Erigone, um grupo formado quando um corpo progenitor maior se fragmentou em uma colisão.

Os instrumentos da sonda Lucy detectaram minerais hidratados no Donaldjohanson, indicando uma alteração provocada pela água em seu corpo de origem.
Os instrumentos da sonda Lucy detectaram minerais hidratados no Donaldjohanson, indicando uma alteração provocada pela água em seu corpo de origem.

As imagens da espaçonave mostram um terreno repleto de crateras em ambos os lóbulos e uma região mais lisa entre eles. Esse estreitamento parece ter sido modificado pelo movimento de material solto sobre a superfície, deixando um registro de alterações posteriores à formação original do asteroide.

Um amendoim espacial lento e bamboleante

O Donaldjohanson não gira em uma rotação simples e constante. As observações da missão Lucy mostram que o asteroide gira lentamente enquanto também oscila — um movimento conhecido como rotação fora do eixo principal.

Em vez de girar de forma limpa em torno de um eixo estável, o asteroide se desloca enquanto gira.

Os pesquisadores sugerem que a luz solar alterou gradualmente a rotação do corpo ao longo de milhões de anos, desacelerando-o e contribuindo para levá-lo ao seu atual estado de rotação caótica.

Esses efeitos provocados pela luz solar decorrem da maneira como corpos celestes pequenos absorvem energia solar e, posteriormente, irradiam calor de volta para o espaço. A força é tênue, mas, em escalas de tempo prolongadas, pode alterar a órbita, a velocidade de rotação e a orientação de um asteroide.

Crateras Apagadas

O registro de crateras aponta para uma superfície que não permaneceu inalterada após a formação de Donaldjohanson. Crateras maiores são compatíveis com a idade esperada para a família Erigone. No entanto, crateras menores são menos frequentes do que o previsto caso a superfície tivesse simplesmente acumulado impactos ao longo do tempo.

A equipe deduz que muitas dessas marcas menores foram apagadas. Vibrações sísmicas decorrentes de impactos posteriores podem ter movimentado material solto, suavizando crateras rasas por toda a extensão do asteroide.

A sonda Lucy, da NASA, passou pelo asteroide Donaldjohanson antes de seguir em direção aos asteroides troianos de Júpiter. Crédito: Goddard Space Flight Center da NASA/Conceptual Image Lab/Adriana Gutierrez
A sonda Lucy, da NASA, passou pelo asteroide Donaldjohanson antes de seguir em direção aos asteroides troianos de Júpiter. Crédito: Goddard Space Flight Center da NASA/Conceptual Image Lab/Adriana Gutierrez

O istmo apresenta sinais adicionais de movimentação local. Algumas crateras nessa área estão mais degradadas do que formações semelhantes nos lobos, o que sugere que o material continuou a se deslocar nessa região após a ocorrência das alterações superficiais mais abrangentes.

Água Ancestral

O espectrômetro de infravermelho da sonda Lucy detectou um sinal proveniente de minerais hidratados, incluindo argilas ricas em ferro. Esses minerais formam-se quando a rocha sofre alteração pela ação de água líquida, o que indica que o corpo progenitor de Donaldjohanson já conteve tanto água quanto material rico em carbono.

A superfície do asteroide assemelha-se à de alguns meteoritos ricos em carbono que passaram por uma alteração moderada pela água. Ele parece menos alterado do que Bennu e Ryugu — dois outros asteroides ricos em carbono visitados por espaçonaves —, o que pode significar que seu corpo progenitor teve menos calor, menos água ou menos tempo para a continuidade das reações químicas.

O contraste sugere que nem todos os asteroides ricos em carbono na parte interna do cinturão principal passaram pelas mesmas condições internas.

Mesmo entre populações de asteroides relacionadas, pequenas diferenças de calor, água e cronologia podem deixar registros minerais distintos nos fragmentos remanescentes.

Próxima parada: os Troianos de Júpiter

O encontro com Donaldjohanson também serviu como um ensaio para os principais alvos da missão Lucy: os asteroides troianos que compartilham a órbita de Júpiter. Acredita-se que esses objetos preservem material do início da história do Sistema Solar, mas eles pertencem a uma população diferente da de Donaldjohanson.

A passagem próxima demonstrou que a Lucy consegue rastrear um alvo pequeno e de rápido deslocamento, além de obter imagens e espectros detalhados.

Também ofereceu aos pesquisadores um exemplo conciso de como um pequeno asteroide pode preservar diversas histórias simultaneamente: colisões, reagregação, alterações minerais induzidas pela água, evolução da rotação e perturbações superficiais posteriores.

Referência da notícia

Marchi, M. et al. (2026). The Lucy flyby of (52246) Donaldjohanson: A bilobed asteroid with tumbling rotation.