Super El Niño à vista: nova previsão do ECMWF traz cenário de evento muito intenso

O ECMWF divulgou a primeira previsão do El Niño iniciada em junho, após o fim da barreira da previsibilidade. O resultado reforça o cenário de um evento muito intenso e aumenta a confiança nas projeções para o segundo semestre.

A previsão de anomalia de temperatura da superfície do mar para agosto-outubro, considerando a média de nove modelos, mostra uma ampla área no Pacífico equatorial com anomalias superiores a 2°C. Créditos: ECMWF.
A previsão de anomalia de temperatura da superfície do mar para agosto-outubro, considerando a média de nove modelos, mostra uma ampla área no Pacífico equatorial com anomalias superiores a 2°C. Créditos: ECMWF.

O Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF) divulgou nesta sexta-feira (5) uma nova rodada de previsão para o El Niño 2026/2027. A atualização ganha importância por ser a primeira previsão iniciada após o período conhecido como barreira da previsibilidade, fase em que os modelos climáticos costumam apresentar maior incerteza.

Os resultados mantêm o sinal de aquecimento muito intenso no Pacífico Equatorial e reforçam a possibilidade de um Super El Niño durante o segundo semestre. Com isso, aumenta a confiança nas projeções para a evolução do fenômeno e seus possíveis impactos sobre o clima global e do Brasil. Confira a seguir o que diz a nova rodada do ECMWF e quais efeitos esperados para o segundo semestre no Brasil.

Fim da barreira da previsibilidade aumenta confiança nas previsões

A barreira da previsibilidade corresponde aos meses de março-abril-maio. Durante esse período, os oceanos e atmosfera passam por mudanças mais rápidas do que em outras épocas do ano. Assim, pequenas variações momentâneas na temperatura do oceano ou nos padrões atmosféricos podem resultar em erros amplificados nas projeções para o restante do ano.

Por esse motivo, previsões iniciadas após maio costumam ser consideradas mais confiáveis para avaliar a intensidade futura do El Niño. Os principais pontos desta atualização são:

  • Esta é a primeira previsão dentre os centros mundiais iniciada em junho, após o fim da barreira da previsibilidade;
  • O sinal de um evento forte a muito forte foi mantido em relação às rodadas anteriores;
  • A consistência das projeções aumenta a confiança no cenário previsto para o segundo semestre.

Este resultado reforça uma tendência observada há vários meses nas principais modelos climáticos e alertada reiteradamente pela Meteored.

Nova previsão mantém sinal de aquecimento excepcional no Pacífico

A previsão do ECMWF iniciada em 1º de junho continua indicando que as anomalias de temperatura da superfície do mar (TSM) na região Niño 3.4 devem ultrapassar 2°C já durante o inverno e permanecer nesse patamar ao longo de todo o segundo semestre.

Tanto as anomalias absolutas quanto as relativas permanecem acima de 2°C, limiar utilizado para caracterizar eventos muito intensos. As anomalias absolutas consideram apenas a diferença da temperatura do oceano em relação à climatologia, enquanto as relativas também descontam parte do aquecimento observado nos demais oceanos tropicais, buscando isolar melhor o sinal do El Niño.

Previsão de anomalia relativa (esquerda) e absoluta (direita) na região de monitoramento Niño 3.4, segundo o ECMWF. Créditos: Adaptado do ECMWF.
Previsão de anomalia relativa (esquerda) e absoluta (direita) na região de monitoramento Niño 3.4, segundo o ECMWF. Créditos: Adaptado do ECMWF.

Entre os principais destaques da previsão estão:

  • Anomalias superiores a 2°C persistindo e se intensificando entre julho e, pelo menos, novembro;
  • Alguns membros individuais do conjunto chegam a indicar valores acima de 4°C entre outubro e novembro;
  • O sinal de aquecimento intenso permanece consistente em diferentes rodadas do modelo;

Essa nova previsão reforça a possibilidade de um episódio excepcionalmente forte no Pacífico Equatorial. Uma análise mais robusta, porém, deve considerar a concordância entre diferentes modelos climáticos.

Neste contexto, a próxima atualização da tradicional pluma de modelos do IRI-Columbia, prevista para 19 de junho, permitirá verificar se outros modelos climáticos continuam apontando para um El Niño muito intenso.

Quais os impactos de um Super El Niño no Brasil?

Enquanto eventos fracos podem não ser capazes de gerar uma resposta atmosférica capaz de modificar padrões de circulação, chuva e temperatura ao redor do globo, os eventos intensos ou muito intensos aumentam a probabilidade de ocorrência dos padrões clássicos associados ao El Niño.

Os efeitos regionais, no entanto, dependem de diversos fatores atmosféricos e interação com outras escalas atmosféricas, eles não crescem de forma linear com a intensidade das anomalias no Oceano Pacífico.

Ou seja: um Super El Niño não significa automaticamente impactos proporcionalmente maiores no tempo e no clima.

A previsão de anomalia de precipitação do ECMWF, iniciada em junho, mostra que chuvas acima da média devem persistentes na Região Sul durante todo o segundo semestre, com anomalias mensais superiores a 50 mm em cada um dos meses entre julho e dezembro.

Enquanto isso, a seca começa a tomar conta das regiões Norte e Nordeste, e se espalha sobre o Centro-Oeste e o Sudeste a partir de Novembro, o que deve causar uma estação chuvosa deficiente.

Previsão de anomalia de precipitação (mm) no segundo semestre de 2026, segundo o ECMWF.
Previsão de anomalia de precipitação (mm) no segundo semestre de 2026, segundo o ECMWF.

Caso esse padrão se confirme, os impactos poderão ser significativos em diferentes regiões do país. Além de chuvas acima da média e aumento de eventos extremos no Sul, a seca mas pela prejuízo à biodiversidade amazônica e impacto na população local, aumento das queimadas, perda de produtividade agrícola no Centro-Oeste.

Além disso, outra grande preocupação é o abastecimento hídrico de São Paulo, a maior metrópole da América do Sul. Atualmente o sistema Cantareira opera com menos de 40% de sua capacidade neste início de junho, e depende do período chuvoso para ser reabastecida.

Previsão de anomalia de temperatura (°C) no segundo semestre de 2026, segundo o ECMWF.
Previsão de anomalia de temperatura (°C) no segundo semestre de 2026, segundo o ECMWF.

Em relação às temperaturas, a previsão mensal indica que o mês de julho ainda deve ser mais ‘ameno’, com temperaturas dentro da média no Centro-Sul (cor cinza) e temperaturas entre 0,5°C e 2°C no Centro-Norte do país, especialmente no Nordeste.

Entre outubro-dezembro, porém, as temperaturas médias devem subir muito e as maiores anomalias chegam a 4°C acima da média, favorecendo a ocorrência de ondas de calor mais frequentes e intensas. As ondas de calor são consideradas pela Organização Mundial da Saúde uma das principais causas de mortes relacionadas ao tempo e ao clima.

Não perca as últimas novidades da Meteored e aproveite todos os nossos conteúdos no Google Discover, totalmente GRÁTIS

+ Siga a Meteored