Chuvas atípicas: onda tropical influencia o padrão de umidade no Sul, Sudeste e no Centro-Oeste; entenda

Oscilação Madden-Julian e ciclone extratropical favorecem chuvas acima da média no Brasil. Entenda a relação multi-escala entre os fenômenos.

A segunda semana de junho será de chuvas acima da média em grande parte do país.
A segunda semana de junho será de chuvas acima da média em grande parte do país.

Uma onda atmosférica que se propaga pelos trópicos pode ajudar a moldar o padrão de chuva sobre o Brasil na próxima semana. Conhecida como Oscilação de Madden-Julian (MJO), ela é um dos principais fenômenos de variabilidade climática na escala intrassazonal (30 a 60 dias) e influencia a distribuição de nuvens, tempestades e áreas de chuva em diversas regiões do planeta.

A MJO não produz chuva diretamente nem é responsável, sozinha, pelos eventos observados em uma região. Seu papel é modificar as condições atmosféricas, favorecendo ou inibindo a formação de nuvens e chuvas em áreas onde já existe condições para a convecção.

Quando ativa sobre o Hemisfério Ocidental, a MJO costuma estar associada a um aumento da atividade convectiva em partes da América do Sul. As previsões indicam que esse sinal poderá estar presente no início de junho, embora exista incerteza sobre sua evolução nas próximas semanas. Na próxima semana, esse sinal tropical coincidirá com a formação de um ciclone extratropical ao sul do continente. O sistema deverá organizar um corredor de umidade entre a Amazônia e o Centro-Sul do Brasil, fenômeno conhecido como rio atmosférico.

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Nesse contexto, a atuação da MJO pode reforçar indiretamente o padrão de umidade já estabelecido pela circulação de grande escala, contribuindo para condições mais favoráveis à ocorrência de chuva acima da média em algumas regiões do país. Confira os detalhes.

Ciclone, rio atmosférico e chuvas acima da média

A segunda semana de junho, entre os dias 8 e 15, tem previsão de chuvas acima da média em uma área que se estende principalmente entre a Amazônia, Centro-Oeste, Sul e Sudeste. As maiores anomalias (desvios em relação à média) estão previstos entre o Mato Grosso do Sul e o Paraná, entre 30 e 90 mm acima da média.

Previsão de anomalia de precipitação entre 8 e 15 de junho, segundo o ECMWF. Créditos: ECMWF.
Previsão de anomalia de precipitação entre 8 e 15 de junho, segundo o ECMWF. Créditos: ECMWF.

Este padrão vem principalmente dos extratrópicos, ou seja, das latitudes médias da América do Sul, onde atuam sistemas meteorológicos como frentes frias e ciclones extratropicais. Um ciclone extratropical está previsto para se formar a partir da segunda-feira (8) entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai.

Previsão de ciclone (letra L no campo de pressão) e rio atmosférico (escala de cores) para quarta-feira (10), segundo o ECMWF.
Previsão de ciclone (letra L no campo de pressão) e rio atmosférico (escala de cores) para quarta-feira (10), segundo o ECMWF.

Quando comparamos o campo do rio atmosférico ao campo de anomalia de precipitação, observamos que as maiores anomalias de chuva ocorrem justamente na faixa onde o transporte de umidade é mais intenso. Esse transporte é realizado em grande parte pelo jato de baixos níveis, uma corrente de ventos que escoa a umidade da Amazônia para o Centro-Sul da América do Sul.

Relação com a MJO

A posição e a intensidade da MJO são monitoradas por meio de um diagrama conhecido como RMM (Real-time Multivariate MJO), que divide a propagação do fenômeno em oito fases ao redor do globo. Quanto mais distante do centro do gráfico estiver a trajetória da MJO, mais organizado e intenso é o sinal atmosférico associado ao fenômeno.

As previsões indicam que a MJO deverá permanecer na fase 8 durante o início da próxima semana, embora apresente tendência de enfraquecimento ao avançar em direção à fase 1. Isso significa que a onda atmosférica continuará atuando sobre o Hemisfério Ocidental nos próximos dias, mas com intensidade gradualmente menor. No entanto, os principais modelos globais divergem sobre a evolução do fenômeno: enquanto o GEFS mantém um sinal mais persistente, o ECMWF indica enfraquecimento gradual da MJO ao longo da semana.

Previsão da MJO segundo o GEFS e o ECMWF (esquerda) e mapa de anomalias de precipitação associadas às fases da MJO, com destaque para a fase 8, entre maio e setembro. Créditos: NOAA/CPC.
Previsão da MJO segundo o GEFS e o ECMWF (esquerda) e mapa de anomalias de precipitação associadas às fases da MJO, com destaque para a fase 8, entre maio e setembro. Créditos: NOAA/CPC.

Cada fase da MJO está associada a padrões típicos de circulação atmosférica e precipitação em diferentes regiões do planeta. Embora cada evento apresente características próprias, análises históricas mostram que episódios de MJO na fase 8, entre maio e setembro, costumam coincidir com maior atividade convectiva e anomalias positivas de precipitação em partes da América do Sul.

Esse sinal não determina, por si só, onde ou quanto irá chover. No entanto, ele sugere um ambiente atmosférico mais favorável à atividade convectiva e ao fornecimento de umidade para sistemas meteorológicos já atuantes, o que corrobora com o quadro previsto relacionado ao ciclone com atuação do rio atmosférico.

Referências da notícia

Madden-Julian Oscillation: Recent Evolution, Current Status and Predictions, publicado por CPC/NOAA em 01/06/2026.

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