El Niño pode ser histórico: nova previsão indica aquecimento acima de 2,5°C no Pacífico

A atualização do conjunto de modelos do IRI reforça a expectativa de um El Niño muito intenso nos próximos meses. As previsões indicam anomalias superiores a 2,5°C, com potencial de um evento histórico.

Previsão de temperatura da superfície do mar para julho-agosto-setembro pelo ECMWF indica ampla área com anomalias superiores a 2°C. Créditos: ECMWF.
Previsão de temperatura da superfície do mar para julho-agosto-setembro pelo ECMWF indica ampla área com anomalias superiores a 2°C. Créditos: ECMWF.

A atualização mensal da pluma de modelos do Instituto Internacional de Pesquisa para Clima e Sociedade (IRI), divulgada nesta segunda-feira (22), reforça os sinais de que o El Niño 2026/2027 poderá atingir um patamar histórico.

As projeções mais recentes indicam que as anomalias de temperatura da superfície do mar (TSM) na região Niño 3.4 devem superar 2,5°C entre o final do inverno e o início da primavera do Hemisfério Sul, aquecimento associado aos chamados popularmente como "super El Niños" - ou, cientificamente, eventos muito intensos.

O resultado confirma o cenário que vem sendo apontado há meses pelos principais centros internacionais de previsão e sugere que o El Niño 2026/2027 poderá superar com os episódios mais intensos já registrados, como os de 1982-83, 1991-92, 1997-98 e 2015-16.

A nova rodada ganha ainda mais relevância por ser a primeira iniciada após a chamada barreira da previsibilidade, período entre março e maio em que a capacidade dos modelos de antecipar a evolução do ENOS (El Niño-Oscilação Sul) costuma ser reduzida.

Nova previsão mostra pico do evento com anomalia superior a 2,5°C

A pluma de modelos do IRI reúne previsões de diversos centros meteorológicos ao redor do mundo. A atualização mais recente reforça a confiança de que o El Niño 2026/2027 poderá atingir intensidade muito forte e, possivelmente, figurar entre os episódios mais intensos já observados.

As projeções mais recentes indicam que as anomalias de TSM na região Niño 3.4, principal área utilizada para monitorar o fenômeno, podem superar 2,5°C entre o final do inverno e o início da primavera do Hemisfério Sul.

Os modelos dinâmicos, considerados mais confiáveis para esse horizonte de previsão, mostram uma intensificação adicional do aquecimento em relação à rodada anterior. Na atualização iniciada em maio, a média do conjunto apontava um pico em torno de 2,2°C e, agora, na primeira rodada iniciada integralmente em junho, o valor máximo pode alcançar cerca de 2,6°C.

Previsão de anomalia relativa de TSM no Niño 3.4 iniciada em maio (esquerda) e junho (direita), destacando os valores máximos na linha vermelha. Créditos: Elaborado por Meteored/Fonte: IRI.
Previsão de anomalia relativa de TSM no Niño 3.4 iniciada em maio (esquerda) e junho (direita), destacando os valores máximos na linha vermelha. Créditos: Elaborado por Meteored/Fonte: IRI.


Outro ponto importante é que a pluma do IRI deixou de incorporar um dos principais sistemas de previsão climática do mundo: o modelo ECMWF. A rodada do ECMWF iniciada em junho mostra que mais da metade dos membros do modelo prevê anomalias superiores a 2,5°C entre julho e agosto. Ou seja, inclusão de suas projeções ao ensemble do IRI elevaria ainda mais a média do conjunto.

Previsão de anomalias relativas de TSM na região do Niño 3.4, iniciada em junho, de acordo com o ECMWF. Créditos: Adaptado de ECMWF.
Previsão de anomalias relativas de TSM na região do Niño 3.4, iniciada em junho, de acordo com o ECMWF. Créditos: Adaptado de ECMWF.

Com a superação da fase de maior incerteza nas previsões do El Niño e a manutenção de um sinal tão intenso de aquecimento, aumenta também a confiança nas previsões dos próximos meses, e tudo indica que este será um evento histórico.

Apesar da perspectiva de um aquecimento excepcional no Pacífico, é importante lembrar que eventos mais fortes não implicam, necessariamente, impactos mais intensos sobre o tempo e o clima em cada região.

O aumento das anomalias não se traduz de forma linear nos campos de temperatura e precipitação. Na prática, um El Niño muito intenso tende a aumentar a probabilidade dos efeitos clássicos associados ao fenômeno, mas a magnitude dos impactos locais depende da interação com outros padrões de variabilidade climática.