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La Niña volta a ganhar força e o Dipolo do Índico deve influenciar o clima

As últimas previsões indicam um aumento da probabilidade da La Niña, fase negativas do ENOS, permanecer até o final de 2022, sendo o 3º ano seguido do evento. Além disso, a fase negativa do Dipolo do Oceano Índico começou a se configurar.

La Niña
As anomalias de Temperatura da Superfície do Mar (TSM) da última semana indicam a continuidade da La Niña sobre o Pacífico Tropical, com intensidade mais fraca. Fonte: NNVL/NOAA.

Apesar de um aparente enfraquecimento da La Niña - fase negativa do fenômeno El NIño Oscilação Sul (ENOS) - no último mês, com o aquecimento das anomalias (diferença em relação à média climatológica) das Temperaturas da Superfície do Mar (TSMs) em grande parte do Pacífico Tropical, os modelos climáticos sinalizam um novo fortalecimento da La Niña no segundo semestre deste ano!

Há cerca de 60% de chance da La Niña persistir durante o inverno, subindo um pouco para 62% a 66% de chance de continuar entre os meses de outubro a dezembro de 2022.

Durante o mês de junho, as anomalias negativas de TSMs que marcam a La Niña sobre o Pacífico Tropical regrediram, indicando um enfraquecimento do fenômeno. Porém, os valores continuam a indicar a persistência da La Niña, com a região do Niño 3.4 (principal região usada para monitorar o ENOS) registrando uma anomalia média de -0.8 °C, pelos dados do conjunto ERSSTv5. Esta é a 7ª anomalia negativa de junho mais forte nos registros da NOAA desde 1950.

Além disso, a atmosfera também tem mostrado uma forte resposta ao evento de La Niña. Por vários meses seguidos os ventos alísios estiveram mais fortes que o normal sobre o Pacífico Tropical e uma forte diferença de pressão entre a porção leste e oeste do Pacífico - maiores valores de pressão no leste e menores no oeste - têm indicado que a Célula de Walker está mais forte que o normal. Essa configuração atmosférica poderá ser a responsável pelo novo fortalecimento da La Niña, favorecendo o surgimento de águas mais frias que o normal sobre a superfície na porção leste e central do Pacífico.

Dessa forma, a última atualização da previsão probabilística feita em conjunto pelo CPC/NOAA (Climate Prediction Center da NOAA) e IRI (International Research Institute for Climate and Society) indica que a La Niña persistirá durante o restante de 2022. As probabilidades mais baixas ocorrem durante os próximos meses, com 60% de chance de La Niña durante os meses de julho a setembro. Depois, as chances de La Niña aumentam durante a primavera e início do verão, passando para 62 a 66% de chance entre os meses de outubro a dezembro de 2022, probabilidade maior que as indicadas nas últimas previsões.

Se as previsões estiverem corretas, esse será o 3º ano consecutivo de La Niña! A ocorrência de dois anos seguidos de La Niña é algo comum, mas de três é relativamente raro. Isso só ocorreu outras duas vezes na história, desde o início dos registros em 1950: em 1973-1976 e 1998–2001.

Outro padrão oceânico à vista, o Dipolo do Índico!

Apesar do grande destaque das previsões de anomalias de TSMs ainda ser a La Niña, outro padrão está prestes a se formar no Oceano Índico, o Dipolo do Oceano Índico (DOI)! Nas últimas semanas, o padrão de anomalias de TSMs sobre o Índico Tropical começou a se alterar, com anomalias positivas de TSM ficando mais concentradas na porção leste do Índico (próximo à Indonésia) e anomalias negativas na porção oeste (próximo à costa da África). Essa configuração começa a estabelecer uma fase negativa do DOI!

Os valores do índice que monitora o DOI estiveram muito próximos ou abaixo do limite negativo (de -0.4°C) nas últimas cinco semanas. Além disso, a grande maioria dos modelos indicam que a fase negativa deverá se configurar e permanecer durante os meses de inverno e primavera do Hemisfério Sul.

Sendo tão distante, o DOI pode influenciar as chuvas no Brasil? Sim! Em artigos anteriores já mencionamos que por mais que os impactos do DOI não sejam tão fortes e evidentes quanto aos do ENOS, sua influência no clima do Brasil não é negligenciável. Alguns estudos já investigaram os impactos do DOI sobre, principalmente, o regime de chuvas no Brasil, e mostraram que durante a fase negativa as chuvas podem ser favorecidas em grande parte do Brasil, principalmente a porção central e norte, e desfavorecida no extremo sul, principalmente no Rio Grande do Sul.