É mentira que o Brasil terá um inverno rigoroso? Confira a análise climática e o que os modelos estão prevendo de fato

Muitos veículos de notícia estão divulgando a informação de que o próximo inverno será o mais rigoroso em décadas, mas não há dados que forneçam respaldo à essa informação.

Embora amplamente noticiado, não há dados que indiquem que o próximo inverno será extremamente rigoroso - na verdade, previsões indicam um inverno mais quente que o normal.
Embora amplamente noticiado, não há dados que indiquem que o próximo inverno será extremamente rigoroso - na verdade, previsões indicam um inverno mais quente que o normal.

Notícias sensacionalistas se espalharam nos últimos dias, mencionando a possibilidade de que o Brasil vá enfrentar um inverno mais intenso do que o normal, dito como “o frio da década”, sem de fato mostrar dados que corroboram essa previsão. Será que essa afirmação é verdadeira?

Afirmações extraordinárias requerem provas extraordinárias. Por isso, vamos observar juntos o que modelos de previsão de vários órgãos internacionais estão projetando para o inverno brasileiro de 2026, nos munindo de informação para tirar nossas próprias conclusões.

Para começarmos a entender essa situação, o melhor ponto de partida é observar que existe, neste momento, um consenso internacional sobre a formação de um El Niño ao longo dos próximos meses - fenômeno que costuma impactar de maneira intensa o clima brasileiro.

Pluma de modelos de previsão de anomalias de temperatura dos oceanos na região Niño 3.4 mostra que todos os modelos dinâmicos e estatísticos indicam uma tendência de aquecimento.
Pluma de modelos de previsão de anomalias de temperatura dos oceanos na região Niño 3.4 mostra que todos os modelos dinâmicos e estatísticos indicam uma tendência de aquecimento.

Podemos interpretar o gráfico acima da seguinte maneira: dezenas de modelos de previsão dinâmicos e estatísticos ao redor do mundo estão indicando uma tendência de aquecimento no oceano pacífico equatorial, sendo que a média indica a consolidação de um El Niño já em meados do trimestre Abril-Maio-Junho, enquanto outros indicam um período mais tardio.

O que acontece quando o El Niño se forma?

O El Niño Oscilação Sul (ENSO) é um dos fenômenos climáticos mais bem estudados do planeta. Existe um consenso de que, em anos de El Niño, é comum observar os seguintes efeitos no clima brasileiro:

  • Região Sul: Chuvas mais intensas e frequentes e aumento das temperaturas;
  • Região Sudeste: Aumento moderado das temperaturas e ondas de calor;
  • Região Centro-Oeste: Sem efeitos muito pronunciados, mas chuvas e temperaturas podem ficar acima da média no Mato Grosso do Sul.
  • Região Nordeste: Diminuição brusca das chuvas e secas severas, especialmente no verão.
  • Região Norte: Diminuição das chuvas, secas severas, aumento pronunciado de incêndios florestais.

O El Niño é caracterizado por um aquecimento nas águas do Oceano Pacífico Equatorial, como é possível observar nas previsões abaixo.

Previsão de anomalias de temperatura da superfície do oceano - modelos ECMWF trimestral Abril-Maio-Junho (esquerda) e CFSV2 mensal para Junho (direita) ambos mostram aquecimento.
Previsão de anomalias de temperatura da superfície do oceano - modelos ECMWF trimestral Abril-Maio-Junho (esquerda) e CFSV2 mensal para Junho (direita) ambos mostram aquecimento.

Diversas previsões de anomalia de temperaturas na superfície do oceano mostram as águas do oceano pacífico equatorial completamente aquecidas já no trimestre Abril - Maio - Junho, sinalizando o início de um El Niño já no final do outono. O fenômeno começa a afetar o Brasil nos meses seguintes à sua configuração.

Isso, por si só, já é um indício forte de que, ao contrário do que está sendo noticiado, as temperaturas no Brasil durante este inverno podem se mostrar mais quentes do que a média se afetadas pelo El Niño.

Esse cenário é corroborado por previsões climáticas numéricas americanas e européias, que indicam que as temperaturas vão se manter acima da média (com uma anomalia de até +2°C) no trimestre que mais engloba o inverno: Julho - Agosto - Setembro. Podemos observar essa situação na imagem abaixo.

Anomalias de temperatura previstas para o trimestre Julho-Agosto-Setembro pelo modelo europeu ECMWF (esquerda) e pelo americano CFSv2 (direita) indicam anomalias quentes.
Anomalias de temperatura previstas para o trimestre Julho-Agosto-Setembro pelo modelo europeu ECMWF (esquerda) e pelo americano CFSv2 (direita) indicam anomalias quentes.

Esses dados pintam um quadro diferente sobre o clima brasileiro: Não há nenhum indício de que este inverno será o "mais rigoroso da década". Muito pelo contrário, tudo indica que ele será, na verdade, mais quente do que o normal.

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É sempre bom lembrar que isso NÃO significa ausência de geadas ou massas de ar frio intensas: Sim, geadas irão ocorrer normalmente e massas de ar frio farão as temperaturas caírem de maneira intensa no Brasil durante o inverno, como é de costume.

Acontece que o clima é ditado pela média e não por condições pontuais. Então, mesmo com a ocorrência pontual de massas de ar frio intensas e geadas, as temperaturas na maior parte do tempo estarão atingindo patamares mais quentes do que o normal para o inverno.

Ou, em outras palavras: Mesmo que ondas de frio intensas ocorram em algumas semanas do inverno, associadas ao desprendimento de massas de ar polar da Antártida, os dados e as previsões indicam que as temperaturas médias do inverno de 2026 serão mais quentes do que o normal, o que vai contra a ideia de que teremos um inverno extremamente rigoroso.