Chuvas irregulares no Sul continuam e a resposta está na Antártica

A irregularidade das chuvas no Sul do Brasil está associada a um padrão atmosférico conhecido como Oscilação Antártica, que vem mantendo uma fase desfavorável à precipitação no Sul do Brasil.

Também chamada de Modo Anular Sul, a AAO é composta por uma fase positiva, negativa e neutra, que afeta a precipitação no sul da América do Sul, incluido o Brasil.
Também chamada de Modo Anular Sul, a AAO é composta por uma fase positiva, negativa e neutra, que afeta a precipitação no sul da América do Sul, incluido o Brasil.

O mês de março vem seguindo a tendência de janeiro e fevereiro, com chuvas irregulares e abaixo da média na Região Sul. Nos dois primeiros meses, as maiores anomalias negativas (desvios em relação à média) foram entre 100 mm e 150 mm no Paraná, enquanto nas demais áreas os valores ficaram entre 50 mm e 100 mm abaixo da média.

Agora, entre os dias 1° e 17 de março, as chuvas já estão entre 50 mm e 100 mm abaixo da média na maior parte da região, exceto por alguns pontos bastante isolados no Rio Grande do Sul e norte do Paraná, que tiveram chuvas acima da média, associadas com eventos pontuais de tempestades.

Anomalia de precipitação observada ao longo dos meses de janeiro, fevereiro e março (1º a 17). Créditos: CPTEC/INPE.
Anomalia de precipitação observada ao longo dos meses de janeiro, fevereiro e março (1º a 17). Créditos: CPTEC/INPE.

O padrão de precipitação observado sobre o Brasil pouco tem a ver com o resfriamento do Oceano Pacífico. Na verdade, o padrão de grande escala associado ao padrão de chuvas irregulares no Sul do Brasil está mais relacionado à Oscilação Antártica. Confira os detalhes.

O que é a Oscilação Antártica?

A Oscilação Antártica (AAO), também conhecida como Modo Anular Sul, é o principal modo de variabilidade extratropical do Hemisfério Sul. De uma forma simplificada, diz respeito à padrões de pressão sobre a Antártica e o cinturão ao seu redor que controlam como os ciclones podem avançar do pólo para as latitudes mais baixas.

A AAO é composta por uma fase positiva, uma fase negativa e neutralidade. Sua fase positiva é caracterizada por anomalias negativas de altura geopotencial sobre a Antártida e anomalias positivas ao redor, em torno da latitude de 45°S, representada na figura abaixo.

Esquema representativo da fase positiva da AAO. Créditos: CPC/NOAA.
Esquema representativo da fase positiva da AAO. Créditos: CPC/NOAA.

De uma forma simplificada, podemos dizer que durante a fase positiva da AAO as pressões ficam relativamente mais baixas sobre a Antártica e mais altas nas latitudes médias do Hemisfério Sul. Esse contraste fortalece um “anel” de ventos de oeste ao redor do continente antártico, fazendo com que frentes frias e ciclones fiquem mais restritos à Antártica, sem conseguir avançar.

Na fase negativa, por sua vez, ocorre o contrário, onde as pressões são mais altas sobre a Antártica e mais baixas sobre o cinturão ao redor, favorecendo ciclones e frentes frias nas latitudes médias.

Como a AAO está afetando a precipitação no Sul do Brasil?

A AAO tem oscilado entre fase positiva e neutralidade desde meados de dezembro de 2025, como pode ser observado no primeiro gráfico do painel abaixo. Nos gráficos seguintes, é mostrada a previsão para 7, 10 e 14 dias, onde se observa uma manutenção desta tendência.

Índice AAO observado (painel superior) e previsão para 7, 10 e 14 dias. Créditos: CPC/NOAA.
Índice AAO observado (painel superior) e previsão para 7, 10 e 14 dias. Créditos: CPC/NOAA.

Diversos estudos científicos mostram que a fase positiva da AAO tende a influenciar diretamente o regime de chuvas no sul da América do Sul. De forma geral, essa fase está associada a anomalias negativas de precipitação sobre o sul do continente, incluindo o Uruguai, o norte da Argentina e o Sul do Brasil, uma vez que desfavorece o avanço dos sistemas precipitantes.

Síntese dos efeitos da fase positiva sobre ciclones, anticiclones e precipitação. Créditos: GrEC-USP e Reboita et al., 2021.
Síntese dos efeitos da fase positiva sobre ciclones, anticiclones e precipitação. Créditos: GrEC-USP e Reboita et al., 2021.

Estudos mais recentes (Reboita et al., 2021) encontraram um padrão de tripolo relacionado à fase positiva, onde precipitação é favorecida sobre a Antártica, desfavorecida sobre o Sul do Brasil e pode ser favorecida, via teleconexão, sobre a Região Sudeste, embora este efeito seja variável.

Quando volta a chover regularmente?

As previsões de anomalias semanais de precipitação do modelo ECMWF, de confiança da Meteored, indicam que o padrão de chuva irregular e abaixo da média deve se manter até a primeira semana de abril na Região Sul.

Isso é mostrado nos mapas abaixo, onde cores em verde representam chuvas acima da média, em laranja chuvas abaixo da média e, em branco, chuvas dentro da média.

Previsão de anomalia semanal de precipitação de acordo com o modelo ECMWF. Créditos: Adaptado de ECMWF.
Previsão de anomalia semanal de precipitação de acordo com o modelo ECMWF. Créditos: Adaptado de ECMWF.

Está prevista uma tendência do retorno das chuvas regulares sobre o Sul a partir de 6 de abril, embora uma ligeira anomalia negativa ainda possa persistir no Oeste do Paraná. Neste contexto, chuvas dentro da média podem ser interpretadas como o retorno das chuvas regulares sobre a região.

Com base na climatologia (média de longo prazo, neste caso, 1991-2020), o mês de abril na Região Sul tem uma redução do volume de chuva quando comparado aos meses de verão. Neste mês, o segundo do outono meteorológico, a precipitação costuma ser maior na faixa oeste e diminui em direção à faixa leste.

Normal climatológica (1991-2020) para precipitação em abril. Créditos: INMET.
Normal climatológica (1991-2020) para precipitação em abril. Créditos: INMET.

Os maiores volumes médios acumulados normalmente ocorrem entre o Oeste e Noroeste do Rio Grande do Sul, ficando em torno de 180 a 220 mm. A maior parte do território gaúcho, metade oeste de Santa Catarina e sudoeste do Paraná têm precipitação com valores intermediários, entre 140 e 180 mm. Na maior parte do Paraná, metade leste de Santa Catarina e Noroeste do Rio Grande do Sul, os acumulados são menores, entre 100 e 140 mm.