ZCAS no início de janeiro: chuva por dias trava o agro no Centro-Oeste e Sudeste até a próxima quarta-feira,7; confira

A ZCAS pode manter chuva por vários dias no Centro-Oeste e Sudeste, segundo o INMET, elevando acumulados e transtornos. No campo, o solo satura, a operação para e doenças ganham janela. Veja decisões práticas para reduzir perdas.

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Excesso de água encharca o solo, sufoca raízes e freia o crescimento da cultura.

Janeiro mal começa e, em muitas regiões, a lavoura já sente o peso de um padrão típico do verão brasileiro: chuva persistente por vários dias, céu carregado e pouca “janela” para o produtor fazer o básico, entrar com máquina, aplicar defensivo, colher, trafegar por estrada vicinal.

Quando isso acontece, o problema deixa de ser só “chover muito” e vira um efeito dominó: solo saturado, operação parada, doença ganhando espaço e prejuízo que aparece em etapas diferentes da safra.

O INMET alertou que o início de 2026 está sob um cenário favorável à formação da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), com instabilidades que podem trazer tempestades localizadas, rajadas de vento e até granizo em áreas do Centro-Oeste e Sudeste.

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Chuva prevista (mm) para 6/1, 14h: instabilidades espalhadas pelo Brasil; modelo ECMWF (Meteored).

E, quando a ZCAS se organiza, o que costuma marcar o evento é justamente a persistência: uma faixa de chuva que se mantém por dias, acumulando volumes elevados e aumentando o risco de transtornos nas cidades e no campo.

A “faixa de chuva” do verão, em linguagem simples

A ZCAS é, na prática, uma espécie de corredor de umidade que liga a Amazônia ao Atlântico e sustenta áreas de chuva por vários dias. Em vez de pancadas isoladas que passam rápido, ela favorece um cenário mais “teimoso”: chove hoje, chove amanhã, chove depois, e a umidade não dá tempo de o solo respirar.

Segundo o INMET, o primeiro episódio de ZCAS de 2026 tende a se configurar a partir do fim de semana e pode persistir até pelo menos o dia 9, com acumulados expressivos ao longo do período.

O alerta não é genérico. O INMET descreveu a possibilidade de acumulados elevados em faixas que incluem estados do Centro-Oeste e do Sudeste, com atenção redobrada para áreas onde a chuva pode ser mais volumosa em 24 horas.

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Chuva acumulada prevista até 7/1, 12h: faixa com volumes muito altos do Norte ao Sudeste; modelo ECMWF (Meteored).

Em eventos assim, até quando a chuva não é “catastrófica”, ela é insistente, e isso muda completamente o ritmo da lavoura, porque cada decisão passa a depender de uma abertura curta de tempo firme.

Solo saturado: a hora em que a máquina vira vilã e o fungo agradece

Quando o solo encharca, o trator não é só “mais lento”: ele pode virar prejuízo. Trafegar em solo úmido demais compacta, forma trilha, piora infiltração e cria um problema que dura além da semana chuvosa. Além disso, operações como pulverização e adubação ficam arriscadas, não apenas por eficiência, mas por segurança e por possibilidade de deriva com vento e chuva de curto intervalo.

Soja, ferrugem
Ferrugem asiática na soja: com folhas molhadas por mais tempo, a doença avança mais rápido e exige monitoramento constante.

E tem outro efeito menos visível, porém decisivo: sequência de dias com folha molhada por longos períodos abre espaço para doenças, sobretudo as fúngicas, avançarem mais rápido. A lavoura fica mais tempo “molhada”, a umidade dentro do dossel aumenta e a janela de controle encurta. A ZCAS não causa a doença sozinha, mas cria o ambiente perfeito para ela ganhar terreno quando o monitoramento e o tempo falham.

Checklist rápido para dias seguidos de chuva (para decidir sem impulso):

  • Suspender tráfego quando o pneu “amassa” o solo e deixa sulco profundo: compactação custa caro depois.
  • Priorizar talhões com maior risco de erosão (declive, solo exposto) com barreiras simples e cobertura.
  • Reorganizar a fila de operações: o que é “urgente agronômico” vem antes do que é “urgente logístico”.
  • Intensificar monitoramento pós-chuva: procurar sinais iniciais de doença e pragas oportunistas.
  • Planejar uma “janela curta”: quando abrir sol, entrar com o essencial primeiro, com equipe e insumo já prontos.

Proteger produtividade sem brigar com o tempo

A melhor resposta à ZCAS não é tentar “vencer a chuva”, e sim reduzir o dano que ela amplifica. No curto prazo, isso significa aceitar que nem todo dia é dia de máquina e usar o tempo para organizar o que define o sucesso quando a janela aparece: calibragem, manutenção, logística de insumos, rota de acesso, priorização de áreas e plano de aplicação.

Em paralelo, vale observar os pontos fracos clássicos: estradas internas, bueiros, áreas com histórico de enxurrada e talhões que já sofreram compactação em anos anteriores.

No médio prazo, a lição é que verão no Brasil não é só calor: é variabilidade, chuva intensa e períodos persistentes de umidade. O INMET reforça que a ZCAS é um dos sistemas que explica por que o Sudeste e o Centro-Oeste concentram muitos eventos de chuva forte nesta estação.

Para o produtor, isso se traduz em estratégia: solo protegido, tráfego consciente, monitoramento mais frequente e decisões tomadas com antecedência. A chuva pode travar a lavoura por alguns dias; o objetivo é que ela não trave o resultado da safra.