TR4 à espreita: conheça o mal-do-panamá que ameaça as bananas do Brasil

O avanço do fungo Fusarium TR4 pela América do Sul coloca o Brasil em alerta. Sem variedades resistentes e com risco de contaminação iminente, a produção de banana pode sofrer perdas severas nos próximos anos.

Murcha de Fusarium Raça Tropical 4 na bananeira: sintomas da doença e danos nas folhas.
Murcha de Fusarium Raça Tropical 4 na bananeira: sintomas da doença e danos nas folhas.

A banana, presente em praticamente todas as casas, merendas e feiras do Brasil, enfrenta uma ameaça invisível e implacável: o Fusarium TR4, um fungo letal que ataca as raízes da planta e impede a absorção de água. Sem cura e altamente contagioso, ele já dizimou lavouras inteiras na Ásia e agora avança sobre a América do Sul.

A doença conhecida como mal-do-panamá Tropical Race 4 já está presente em Colômbia, Peru e Venezuela, e cientistas alertam: sua chegada ao Brasil é “apenas uma questão de tempo”.

Sem variedades comerciais resistentes e com grande parte da produção concentrada na cultivar Cavendish, o país se vê diante de um risco real à sua fruta mais consumida — e de alto impacto econômico e social.

Um velho inimigo em nova forma

O Fusarium oxysporum f. sp. cubense é conhecido desde o século XX, mas sua variante TR4 (Tropical Race 4) representa um salto de agressividade. Diferente das versões anteriores, essa raça não respeita fronteiras varietais e pode permanecer viva no solo por até 30 anos, mesmo após o fim da cultura.

Sintomas internos avermelhados descoloração vascular causada por murcha de Fusarium Foc TR4 pseudocaule de bananeira
Sintomas internos avermelhados descoloração vascular causada por murcha de Fusarium Foc TR4 pseudocaule de bananeira

A transmissão ocorre principalmente por solo contaminado em calçados, veículos e ferramentas agrícolas, o que torna seu controle especialmente difícil em regiões tropicais. Países como Filipinas, Indonésia e Moçambique já perderam milhares de hectares, enquanto a Colômbia declarou estado de emergência fitossanitária em 2019. Agora, com a detecção em países vizinhos, o Brasil acende o alerta vermelho.

O impacto que cabe na fruteira

A ameaça do TR4 vai além da lavoura: ela atinge o bolso, a mesa e até o imaginário coletivo dos brasileiros. A seguir, veja por que esse fungo pode se tornar uma crise nacional:

  • Banana é a fruta mais consumida do Brasil, com mais de 27 kg por pessoa ao ano.
  • 90% da produção brasileira é da variedade Cavendish, justamente a mais vulnerável ao TR4.
  • Quase toda a produção é para consumo interno: uma queda afetaria merenda escolar, pequenos comércios e preços no varejo.
  • O TR4 não afeta humanos, mas causa prejuízos milionários a produtores rurais.
  • Erradicar focos exige medidas drásticas, como isolamento de áreas inteiras por décadas.

Com esses ingredientes, a narrativa de uma "banana em extinção" ganha força nas redes sociais, onde vídeos de plantações murchas e relatos de produtores circulam com tom alarmista, e alto engajamento.

O Brasil diante do desafio

Segundo artigo recente publicado na revista Frontiers in Plant Science, a América Latina carece de cultivares comerciais resistentes ao TR4 e de estratégias coordenadas de contenção. Em julho de 2025, fóruns organizados por OIRSA e Taiwan propuseram medidas emergenciais de rastreamento e quarentena, mas o Brasil ainda não tem um plano nacional articulado para lidar com a possível chegada do patógeno.

Pesquisadores da Embrapa e universidades já trabalham no desenvolvimento de variedades resistentes e em protocolos de biossegurança, mas os desafios são imensos: falta mapeamento genético em larga escala, investimento em educação sanitária rural e apoio técnico para pequenos produtores. Enquanto isso, o país corre contra o tempo para evitar que a praga entre e se espalhe, repetindo tragédias já vistas no exterior.

Referência da notícia

Fusarium Tropical Race 4 in Latin America and the Caribbean: status and global research advances towards disease management. 15 de julho, 2024. Munhoz, T., et. al.