Pecuária na Amazônia: pastagens responderam por 78% do desmatamento entre 2017 e 2022; entenda

Uma revisão de 36 estudos mostra que o desmatamento ligado à pecuária amazônica ocorre por diferentes razões e exige combinar recuperação de pastagens, rastreabilidade, assistência técnica, crédito responsável e fiscalização adaptada a cada realidade produtiva da região.

A expansão das pastagens mantém a pecuária no centro do debate sobre uso da terra e conservação da Amazônia.
A expansão das pastagens mantém a pecuária no centro do debate sobre uso da terra e conservação da Amazônia.

A expansão das pastagens continua sendo um dos principais fatores de transformação da Amazônia. Entre 2017 e 2022, cerca de 78% do desmatamento registrado na região esteve associado à abertura de áreas para pasto, enquanto as lavouras responderam por parcela menor.

O dado reforça a importância da pecuária no debate ambiental, mas uma nova revisão científica mostra que o problema não pode ser tratado como se todas as propriedades funcionassem da mesma maneira.

O estudo avaliou 335 artigos e selecionou 36 pesquisas capazes de detalhar os diferentes perfis envolvidos na conversão da floresta em pastagem. A principal conclusão é prática: políticas de controle, crédito, assistência técnica e rastreabilidade tendem a ser mais eficientes quando reconhecem diferenças de escala, acesso a capital, infraestrutura e capacidade produtiva.

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A revisão também alerta que grande parte das pesquisas se concentra no Brasil, o que exige cautela ao transferir conclusões para toda a bacia amazônica.

Pecuária extensiva mantém pressão sobre novas áreas

Em muitas zonas de fronteira agrícola, a pecuária ocupa grandes extensões com produtividade relativamente baixa. Isso ocorre porque sistemas extensivos exigem menos mão de obra, adaptam-se a regiões com infraestrutura limitada e funcionam como alternativa onde cultivos mais intensivos enfrentam custos elevados de transporte, armazenamento e comercialização.

A criação de gado ocupa extensas áreas da Amazônia e exige maior eficiência produtiva nas terras já abertas.
A criação de gado ocupa extensas áreas da Amazônia e exige maior eficiência produtiva nas terras já abertas.

O problema surge quando a produção depende continuamente da abertura de novas áreas, em vez da recuperação de pastagens já degradadas. Solos empobrecidos, falta de crédito, assistência técnica insuficiente e acesso limitado a insumos reduzem a capacidade de intensificação. Nesses contextos, o avanço da pastagem sobre a floresta pode parecer uma solução imediata, embora amplie perdas de biodiversidade, emissões de carbono, fragmentação de habitats e custos ambientais no longo prazo.

Rastreabilidade e uso da terra entram no centro do debate

A revisão também mostra que propriedades maiores, investidores e operações integradas ao mercado possuem mais recursos para adquirir terras, ampliar rebanhos e construir infraestrutura. Por isso, medidas de controle precisam acompanhar não apenas o local de venda do gado, mas também a trajetória dos animais entre diferentes propriedades.

Entre as medidas consideradas mais relevantes estão:

  • rastreamento do gado desde a propriedade de origem;
  • recuperação de pastagens degradadas antes da abertura de novas áreas;
  • crédito condicionado ao cumprimento ambiental;
  • assistência técnica para elevar a produtividade por hectare;
  • fiscalização fundiária e ambiental integrada entre municípios e estados.

Soluções diferentes para realidades produtivas distintas

O estudo identifica duas motivações principais para a expansão das pastagens. Em alguns casos, a abertura de áreas está associada à valorização da terra, ao aumento patrimonial e à ampliação de grandes operações. Em outros, decorre da baixa rentabilidade, da falta de tecnologia e da necessidade de manter a renda familiar.

Recuperação de pastagens degradadas e rastreabilidade do rebanho estão entre as principais estratégias para reduzir novos desmatamentos.
Recuperação de pastagens degradadas e rastreabilidade do rebanho estão entre as principais estratégias para reduzir novos desmatamentos.

Para operações capitalizadas, rastreabilidade, controle fundiário, regras de crédito e fiscalização são instrumentos centrais. Para produtores com menor capacidade de investimento, a prioridade deve ser recuperar áreas improdutivas, ampliar o acesso a tecnologias, fortalecer a assistência técnica e reduzir barreiras de mercado.

A conclusão ultrapassa a Amazônia: em qualquer região de expansão agropecuária, reduzir o desmatamento depende de produzir mais nas áreas já abertas, acompanhar a origem dos produtos e adaptar as políticas às condições reais de cada sistema produtivo, com planejamento regional integrado.

Referência da notícia

Karla Díaz Parra, Nicolas Espinosa Menéndez, Jean Rodríguez. (2026). Pastures of power: A literature review on cattle ranching deforestation in the Amazon.