Café mais caro: calor extremo está apertando as lavouras

O café que acorda o Brasil está esquentando, literalmente. Um estudo mostra que regiões produtoras ganham semanas extras acima de 30°C, pressionando colheitas e preços. Entenda por que isso acontece e como a xícara pode mudar.

Temperaturas acima de 30°C se tornam mais frequentes nas principais regiões produtoras de café do mundo.
Temperaturas acima de 30°C se tornam mais frequentes nas principais regiões produtoras de café do mundo.

O café está tão presente no dia a dia que parece “garantido”. Mas as regiões onde ele nasce, o chamado cinturão do café, estão ficando quentes demais para uma planta que precisa de equilíbrio entre sol, chuva e noites frescas.

O que parecia apenas uma variação do clima já se transformou em uma tendência consistente de calor excessivo nas áreas que abastecem o mundo.

Um levantamento recente da Climate Central colocou esse risco em números: o aquecimento global está adicionando dias de calor acima de 30°C exatamente onde o café é cultivado. Mais calor, no campo, costuma significar menos grão, menor qualidade e mais pressão no preço que chega ao consumidor.

30°C: o “sinal vermelho” para a lavoura

A análise usa um limite fácil de entender: 30°C como um ponto em que o estresse térmico aumenta e a planta passa a produzir pior. Ao comparar 2021–2025 com um cenário “sem poluição de carbono”, o estudo concluiu que 25 países que concentram cerca de 97% da produção tiveram, em média, 47 dias extras por ano acima desse patamar, quase dois meses a mais de calor “fora de época”.

O aumento do calor nas áreas cafeeiras pode refletir diretamente no preço pago pelo consumidor.
O aumento do calor nas áreas cafeeiras pode refletir diretamente no preço pago pelo consumidor.

Nos cinco maiores produtores (75% do mercado), a média sobe para 57 dias extras. E o Brasil, líder global, aparece com 70 dias adicionais por ano; em Minas Gerais, 67. Em alguns países, o salto é ainda maior, El Salvador chega a 99 dias extras e a Nicarágua, a 77. Na prática, é como empurrar uma parte grande do ciclo do café para condições menos favoráveis, repetidas ano após ano.

Por que a bebida fica mais cara

Calor demais não é só desconforto: ele atrapalha a floração, aumenta a chance de queda de flores e frutos e pode reduzir o tamanho do grão, efeitos que derrubam rendimento e qualidade. O arábica, mais valorizado, tende a sofrer mais: mesmo temperaturas entre 25°C e 30°C já são consideradas subótimas para o seu crescimento, o que torna o limiar de 30°C uma estimativa “conservadora”.

E o calor raramente vem sozinho. Mudanças no regime de chuvas, secas e a maior pressão de pragas e doenças entram na conta.

Quando a oferta oscila e o risco aumenta, o mercado reage: o resultado costuma ser um café mais caro, com mais variação de preço e, em alguns anos, mais difícil de encontrar na qualidade de sempre. Na prática, isso se traduz em impactos diretos na lavoura e na cadeia produtiva, como:

  • Menos produtividade e maior risco de quebra
  • Grão menor e bebida com menos complexidade
  • Custo extra com água, sombra e manejo
  • Mais pressão de pragas e doenças

Adaptação vira regra

A boa notícia é que há caminhos práticos: sombreamento (árvores e sistemas agroflorestais), conservação de solo para reter umidade, manejo de água, escolha de cultivares e ajustes no calendário agrícola. O debate também é econômico: a adaptação tem custo, e reportagens que repercutiram o estudo citam uma estimativa de cerca de US$ 2,19 por hectare por dia para implementar medidas, viável no papel, difícil no caixa de quem produz com margem curta.

O ponto decisivo é que isso não é “problema de um país”. A cadeia do café depende de milhões de pequenos produtores. A partir de agora, a descoberta por trás desses números muda o jogo: ciência e dados precisam indicar onde o café ainda vai prosperar; governos e empresas precisam acelerar apoio e reduzir emissões; e nós, consumidores, vamos sentir cada vez mais o valor de origem, sustentabilidade e resiliência climática em cada xícara.