Acidificação ameaça vida marinha no Brasil e no mundo e impulsiona soluções biotecnológicas

Peixes desorientados e recifes de corais enfraquecidos são apenas algumas das consequências visíveis de um fenômeno devastador provocado pelas emissões de carbono, que exige agora medidas urgentes de proteção e estratégias inovadoras de mitigação.

Especialistas alertam para os riscos silenciosos que a vida marinha corre atualmente. Foto: Adobe Stock
Especialistas alertam para os riscos silenciosos que a vida marinha corre atualmente. Foto: Adobe Stock

O excesso de dióxido de carbono emitido indiscriminadamente por intervenções humanas está cobrando um preço altíssimo dos oceanos, provocando um fenômeno silencioso, porém devastador: a progressiva acidificação das águas. Consequentemente, a alteração na química marinha afeta diretamente a sobrevivência de diversas espécies, ameaçando atingir a máxima degradação de recifes de corais e moluscos em pouco tempo.

O problema se agrava de maneira contínua já que o potencial hidrogeniônico (pH) oceânico continua caindo, fragilizando drasticamente as estruturas biológicas baseadas em carbonato de cálcio. Nesse cenário, os peixes também sofrem impactos severos. A acidez prejudica os otólitos, estruturas internas equivalentes ao nosso ouvido, essenciais para o equilíbrio e a audição adequada.

Diante da mínima alteração nessas funções vitais, os animais encontram enormes dificuldades de locomoção, percepção de predadores e busca por parceiros ou alimentos. Segundo especialistas do Instituto Oceanográfico da USP, o quadro atual exige atenção imediata e mudanças estruturais na sociedade.

Alternativas de mitigação e o papel da genética

Para reverter esse o dano ambiental, propostas de geoengenharia despontam frequentemente no debate científico global. Algumas ideias sugerem semear os mares com ferro para estimular a proliferação de microalgas, enquanto outras defendem aplicar hidróxido de sódio diretamente nas águas para elevar a média da mínima alcalinidade exigida pelos ecossistemas marinhos.

Contudo, são altíssimos os custos operacionais e a escala necessária para funcionarem na prática sem gerar efeitos desastrosos. Por outro lado, os avanços na engenharia genética apresentam caminhos promissores e inovadores para a conservação ambiental. A tecnologia CRISPR, amplamente reconhecida por sua precisão na modificação de sequências de DNA, tem potencial para se tornar uma ferramenta de grande relevância na ecologia.

A constante emissão de carbono está tornando os mares inóspitos para diversas espécies. Foto: Ilustração
A constante emissão de carbono está tornando os mares inóspitos para diversas espécies. Foto: Ilustração

Ao alterar genes específicos, cientistas poderiam, teoricamente, criar linhagens de corais ou outros organismos marinhos significativamente mais resistentes às novas condições de acidez, oferecendo uma adaptação direcionada onde a mitigação climática tradicional apresenta falhas. O emprego consciente dessa biotecnologia pode representar o próximo salto na proteção da biodiversidade aquática.

Preservação como barreira de defesa

Enquanto as ferramentas biotecnológicas e químicas continuam em fases de estudo ou enfrentam debates éticos profundos, a preservação física dos ambientes ainda emerge como a linha de frente mais segura. A chamada Meta 30x30, intensamente discutida globalmente, visa transformar pelo menos 30% das áreas marinhas em zonas protegidas até o fim desta década.

Essa medida rigorosa pretende dar o fôlego necessário para que a natureza consiga resistir ao estresse climático diário. O Brasil, apesar de despontar como uma liderança internacional no tema ambiental, esbarra na crônica falta de recursos financeiros para fiscalizar e manejar suas reservas de forma adequada.

Hoje, o país cobre cerca de 26% do seu território marítimo sob jurisdição nacional com alguma classificação de proteção, mas a eficácia real ainda é limitada. Portanto, a blindagem efetiva dos mares exige obrigatoriamente uma ação conjunta contínua e a transferência de verbas de países ricos para as nações do hemisfério sul, garantindo que toda a vida marinha tenha uma chance real de adaptação e sobrevivência a longo prazo.

Referências da notícia

Fenômeno invisível afeta audição de peixes e ameaça a vida marinha no Brasil e no mundo. 19 de fevereiro, 2026.