As plantas da Amazônia que você conhece estão prestes a sumir por causa do clima

Estudo publicado na Nature mostra que mudanças climáticas e perda de línguas indígenas podem reduzir, ao mesmo tempo, plantas amazônicas usadas como alimentos, remédios e materiais, ameaçando serviços essenciais e conhecimentos acumulados durante muitas gerações na floresta.

A diversidade de plantas da Amazônia sustenta alimentos, remédios, materiais e práticas culturais mantidas por diferentes povos da região.
A diversidade de plantas da Amazônia sustenta alimentos, remédios, materiais e práticas culturais mantidas por diferentes povos da região.

A Amazônia não é apenas uma reserva de biodiversidade. Ela também funciona como farmácia, despensa, oficina e arquivo cultural para centenas de povos que aprenderam, ao longo de gerações, a usar frutos, sementes, folhas, fibras, madeiras e resinas.

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Um estudo publicado na Nature mostra que esse patrimônio pode ser atingido simultaneamente pelas mudanças climáticas e pelo desaparecimento de línguas indígenas.

A descoberta aproxima o debate climático da alimentação, da saúde e da economia da floresta.

O trabalho reúne contribuições da Universidade de Zurique e do Moore Center for Science, da Conservation International. A análise compilou 90.536 registros de uso de plantas publicados entre 1504 e 2023 e projetou como a distribuição dessas espécies pode mudar entre 2060 e 2080.

Uma floresta usada todos os dias

O levantamento identificou pelo menos 5.796 espécies nativas utilizadas por pessoas, equivalentes a 36% das plantas com sementes conhecidas na Amazônia. Elas pertencem a 195 famílias e 1.284 gêneros. Entre as espécies mais citadas estão palmeiras como pupunha, patauá, buriti e Euterpe precatoria, usadas em alimentação, construção, utensílios e práticas culturais.

A Euterpe precatoria, palmeira amazônica de grande importância alimentar e cultural, está entre as espécies mais citadas nos registros de uso por povos da região.
A Euterpe precatoria, palmeira amazônica de grande importância alimentar e cultural, está entre as espécies mais citadas nos registros de uso por povos da região.

A dimensão medicinal é especialmente expressiva: o banco de dados reuniu 3.862 espécies usadas como remédio, contra 1.804 relacionadas à alimentação humana. Isso não significa que todas estejam igualmente ameaçadas. O artigo não apresenta um ranking simples das espécies em maior perigo, mas demonstra que, como conjunto, as plantas úteis tendem a perder área adequada mais rapidamente do que aquelas sem uso documentado.

Plantas úteis podem perder mais espaço

Os pesquisadores construíram modelos de distribuição para 4.509 espécies utilizadas e 3.920 não utilizadas. Em cinco modelos climáticos e três cenários de emissões, a maioria das projeções indicou contração mais intensa da área potencial das plantas ligadas às necessidades humanas.

O recuo aparece em 72% das famílias e 68% dos gêneros avaliados, embora a intensidade varie conforme a espécie, o local e o aquecimento.

Os principais grupos de serviço avaliados incluem:

  • plantas medicinais, apontadas como particularmente expostas;
  • espécies destinadas à alimentação humana e animal;
  • árvores e palmeiras usadas em construção e combustível;
  • fibras e materiais para ferramentas e utensílios;
  • espécies ligadas a rituais e outras práticas culturais.
Os rios conectam comunidades amazônicas e também funcionam como caminhos para a circulação de alimentos, plantas, práticas culturais e conhecimentos transmitidos entre gerações.
Os rios conectam comunidades amazônicas e também funcionam como caminhos para a circulação de alimentos, plantas, práticas culturais e conhecimentos transmitidos entre gerações.

Em escala local, o estudo estimou que povos amazônicos podem perder, em média, de 28% a 34% das plantas úteis presentes em seus territórios até 2060–2080. A redução dos serviços associados, como alimento, cura ou matéria-prima, varia de 18% a 23%. Uma espécie pode desaparecer localmente sem ser extinta em toda a Amazônia, mas seu uso pode se tornar inviável para a comunidade que dependia dela.

Quando a espécie some, a memória também enfraquece

A ameaça não vem apenas do clima. Cerca de 74% dos serviços registrados estão associados a uma única cultura, o que mostra como grande parte desse conhecimento é localizada. A base analisada inclui 156 línguas indígenas vivas. Caso aquelas classificadas como ameaçadas desapareçam, os autores estimam uma redução de 26% no conjunto documentado de conhecimentos amazônicos sobre plantas.

As projeções devem ser interpretadas com cautela. O trabalho não incorporou efeitos combinados de desmatamento, fogo, mineração ou eventos extremos, nem toda a variação do microclima sob a floresta. Ainda assim, o resultado reforça uma prioridade: conservar plantas sem proteger territórios, línguas e transmissão de conhecimento é insuficiente

Referência da notícia

Cámara-Leret, R., Roehrdanz, P.R. & Bascompte, J. (2026). The forest of knowledge under global change.