Vulcão de 1,9 bilhão de anos na Amazônia coloca Brasil no centro de estudos sobre a Terra primitiva

Descoberta no sul do Pará revela vestígios do vulcão mais antigo conhecido do planeta e ajuda cientistas a compreenderem a formação da crosta terrestre e dos primeiros continentes.

Vulcão Amazonas tem cerca de 1,9 bilhão de anos. Crédito: André Massanobu Kunifoshita/UFC
Vulcão Amazonas tem cerca de 1,9 bilhão de anos. Crédito: André Massanobu Kunifoshita/UFC

Abrigado sob a floresta amazônica, no sul do Pará, um gigante silencioso desafia a história geológica da Terra. Pesquisadores identificaram na região de Uatumã o vulcão mais antigo conhecido do planeta, com cerca de 1,9 bilhão de anos. A descoberta colocou a Amazônia no centro de estudos internacionais sobre a formação da crosta terrestre e dos primeiros continentes.

Com aproximadamente 22 quilômetros de diâmetro, o antigo vulcão chegou a possuir um cone de cerca de 400 metros de altura. Segundo os pesquisadores, sua atividade vulcânica teria durado aproximadamente 300 milhões de anos. Atualmente, a vegetação cobre grande parte da estrutura, mas as rochas preservam marcas importantes das antigas erupções.

Batizado de Amazonas, o vulcão começou a despertar interesse científico no início dos anos 2000. Desde então, análises detalhadas de rochas, minerais e estruturas subterrâneas reforçaram a hipótese de que o complexo vulcânico surgiu em um período extremamente remoto, muito antes do surgimento de diversas formações montanhosas conhecidas atualmente.

Pesquisas revelam atividade vulcânica intensa na Amazônia

Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Unicamp ajudou a determinar o período de atividade do vulcão. A pesquisa foi publicada na revista científica Journal of South American Earth Sciences e apontou que as rochas vulcânicas da região possuem cerca de 1,8 bilhão de anos.

De acordo com o professor e geólogo da UFC Felipe Holanda, as formações estão associadas a antigas caldeiras vulcânicas, estruturas circulares rebaixadas por onde lava e gases eram expelidos durante as erupções. Ele compara o fenômeno às caldeiras existentes no Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos.

Mesmo após bilhões de anos de erosão, mudanças climáticas e transformações naturais da paisagem, o vulcão ainda preserva rochas do antigo sistema magmático. Estudos apontam que condutos de lava, depósitos minerais e estruturas profundas permaneceram intactos o suficiente para permitir análises detalhadas sobre a origem da formação.

Rochas preservam pistas sobre a Terra primitiva

Os pesquisadores também encontraram evidências de cristalização profunda nas rochas extraídas da área. As amostras indicam que o magma circulou por fissuras da crosta terrestre em um período em que o planeta ainda consolidava seus primeiros blocos continentais estáveis.

Estudo revela que a região Amazônica brasileira teve intensa atividade vulcânica. Crédito: André Massanobu Kunifoshita/UFC
Estudo revela que a região Amazônica brasileira teve intensa atividade vulcânica. Crédito: André Massanobu Kunifoshita/UFC

A ausência de crateras e cones vulcânicos visíveis ocorre devido ao desgaste provocado por processos erosivos e ciclos climáticos que atuaram durante bilhões de anos. Segundo o pesquisador André Ueno Kunifoshita, da UFC e um dos autores do estudo, os cientistas trabalham com pistas preservadas nas rochas para reconstruir os eventos geológicos do passado.

Modelagens feitas com sensoriamento remoto mostram ainda que o sistema vulcânico pode ocupar uma área muito maior do que a já identificada. Grande parte da estrutura permanece soterrada sob camadas sedimentares acumuladas ao longo do tempo.

Descoberta ajuda a explicar a formação da Amazônia

Os estudos indicam que o vulcão influenciou diretamente a formação do relevo amazônico. Parte das bases rochosas que sustentam atualmente a floresta teria origem nesse antigo sistema magmático, considerado fundamental para compreender a evolução geológica da região.

Além do impacto geológico, os minerais encontrados ajudam cientistas a investigar a composição química da Terra primitiva. Elementos preservados nas rochas fornecem pistas sobre a atmosfera antiga, o comportamento térmico do planeta e o processo de consolidação dos continentes.

Para os pesquisadores, o vulcão Amazonas funciona como um verdadeiro arquivo geológico natural. “Hoje sabemos que não há vulcões ativos no Brasil, mas o Norte do país já foi uma região marcada por intensa atividade vulcânica”, afirma o professor Felipe Holanda.

Referências da notícia

Gazeta do Povo. O vulcão brasileiro que é reconhecido como o mais antigo do mundo. 2026

Não perca as últimas novidades da Meteored e aproveite todos os nossos conteúdos no Google Discover, totalmente GRÁTIS

+ Siga a Meteored