Super El Niño: as chuvas extremas de 2024 podem se repetir no Rio Grande do Sul?

As enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 foram resultado de uma combinação complexa de fatores atmosféricos. Entenda por que não é possível afirmar que o evento se repetirá mesmo com um El Niño a caminho.

Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, alagado no dia 7 de maio de 2024 Créditos: Reprodução/Wesley Santos/Reuters.
Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, alagado no dia 7 de maio de 2024 Créditos: Reprodução/Wesley Santos/Reuters.

As enchentes históricas que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024 ainda estão vivas na memória da população e, com elas, cresce a preocupação sobre a possibilidade de novos eventos extremos. Nos últimos meses, parte da mídia e das redes sociais têm tratado a hipótese de um “super El Niño” como uma certeza, frequentemente estabelecendo uma relação direta e simplificada com a repetição de chuvas extremas no Sul do Brasil. Mas até que ponto essa relação é válida?

Embora o desenvolvimento de um novo episódio de El Niño de fato esteja a caminho, sendo provavelmente um episódio forte, a ocorrência de um “super El Niño” ainda é incerta.

E o mais importante: o evento extremo de 2024 não pode ser explicado por um único fator. Ele resultou de uma combinação complexa de condições atmosféricas em diferentes escalas, incluindo padrões regionais e de grande escala que atuaram de forma conjunta.

Simplificar esse tipo de evento e associá-lo diretamente a previsões ainda incertas não apenas distorce a compreensão científica, como também contribui para a disseminação de medo desnecessário. A seguir, entenda os fatores que levaram ao evento histórico de chuvas sobre o Rio Grande do Sul em maio de 2024 e o que sabemos até agora sobre a formação do El Niño.

O que ocorreu em maio de 2024?

As chuvas que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024 configuraram um dos maiores desastres climáticos da história do Brasil. Segundo a Defesa Civil, mais de 96% dos municípios do estado foram afetados (478 cidades), impactando cerca de 2,4 milhões de pessoas.

Símbolo do evento: o cavalo Caramelo ficou 4 dias ilhado em um telhado em Canoas/RS. Créditos: Reprodução/TV Globo.
Símbolo do evento: o cavalo Caramelo ficou 4 dias ilhado em um telhado em Canoas/RS. Créditos: Reprodução/TV Globo.

O evento deixou 183 mortos, 27 desaparecidos e mais de 800 feridos, além de causar destruição generalizada de casas, estradas e pontes. A gravidade foi tamanha que o episódio foi classificado como sem precedentes pelo relatório “O estado do clima na América Latina e Caribe 2024”, publicado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) em 2025.

Quais fatores levaram a este evento sem precedentes?

O contexto climático daquele período ajuda a entender por que o evento foi tão extremo. Maio de 2024 ocorreu em meio ao ano mais quente já registrado globalmente, sendo o nono mês consecutivo com anomalias temperaturas acima de 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais, além de níveis recordes de vapor d’água na atmosfera, combustível essencial para chuvas intensas.

O El Niño de 2023/24 estava em processo de enfraquecimento desde abril, com seu último trimestre ativo em abril-maio-junho, o que reforça que ele não foi o único ou principal fator responsável pelo desastre.

Anomalias mensais globais de temperatura do ar, de acordo com dados ERA5, com destaque para o ano de 2024 em amarelo. Créitos: ECMWF.
Anomalias mensais globais de temperatura do ar, de acordo com dados ERA5, com destaque para o ano de 2024 em amarelo. Créitos: ECMWF.

Estudos indicam que o gatilho mais importante ocorreu em escala global: o aquecimento anômalo do oceano Índico gerou um padrão de ondas na atmosfera que se propagou até a América do Sul (teleconexão). Esse padrão favoreceu a formação de um bloqueio atmosférico persistente, com uma área de alta pressão sobre o centro do Brasil.

Contexto do evento na escala global: formação de um padrão de teleconexão (esquerda) e padrão observado em 2024. Créditos: Adaptado de Reboita et al. (2024).
Contexto do evento na escala global: formação de um padrão de teleconexão (esquerda) e padrão observado em 2024. Créditos: Adaptado de Reboita et al. (2024).

Esse bloqueio teve um papel duplo: de um lado, manteve o tempo seco e quente em grande parte do país (onda de calor) e impediu os sistemas de avançarem da região Sul para latitudes mais baixas. De outro, reorganizou a circulação atmosférica de forma a concentrar os efeitos no Sul: fortaleceu os ventos em altitude e criou condições favoráveis à subida contínua de ar sobre o Rio Grande do Sul.

Escala sinótica do evento mostrando anomalias de precipitação, cartas sinóticas e satélite com linhas de corrente em altos níveis (Créditos: Da Rocha, Reboita e Crespo, 2024), e imagens de satélite, anomalias/TSM observada no Atlântico Sul e anomalias da divergência do fluxo de umidade verticalmente integrado (Reboita et al., 2024).
Escala sinótica do evento mostrando anomalias de precipitação, cartas sinóticas e satélite com linhas de corrente em altos níveis (Créditos: Da Rocha, Reboita e Crespo, 2024), e imagens de satélite, anomalias/TSM observada no Atlântico Sul e anomalias da divergência do fluxo de umidade verticalmente integrado (Reboita et al., 2024).

Ao mesmo tempo, o jato de baixos níveis transportava calor e umidade da Amazônia de forma persistente em direção ao estado, enquanto a passagem de sistemas meteorológicos eram fortalecidos por essa dinâmica. Com circulação acoplada entre baixos e altos níveis, o resultado foi um ambiente altamente eficiente na produção de precipitação.

O resultado foi uma sequência de episódios de chuvas torrenciais e persistentes, com acumulados que ultrapassaram 800 mm em algumas regiões. Os impactos foram agravados por fatores locais, como o relevo, o solosaturado e vulnerabilidades estruturais, ampliando significativamente a magnitude do desastre.

Podemos afirmar que isso vai se repetir baseado na previsão de Super El Niño?

De forma direta: não há base científica para afirmar que um evento como o de 2024 vai se repetir apenas com base na previsão de um El Niño, ainda mais que um “super El Niño” ainda é incerto.

Quando consideramos a média dos modelos climáticos, há confiança em dizer que um El Niño forte é cada vez mais provável, mas ainda não há base sólida para afirmar que um evento histórico irá se concretizar - mesmo que alguns modelos individuais projetem esse cenário, previsões isoladas não são suficientes para prever um Super El Niño.

O desastre no Rio Grande do Sul resultou de uma combinação de fatores em múltiplas escalas, e não de uma única causa, somada à vulnerabilidade estrutural das cidades frente a eventos cada vez mais intensos.

Isso não significa que eventos extremos estejam descartados. O El Niño pode favorecer extremos, mas não determina, por si só, a ocorrência de episódios históricos como o de 2024.

Referências da Notícia

O Brasil teve três eventos climáticos extremos sem precedentes em 2024, segundo relatório recente da OMM, publicado em 16/04/2025 por Metered/Tempo.com.

Reboita, M.S.; Mattos, E.V.; Capucin, B.C.; Souza, D.O.d.; Ferreira, G.W.d.S. A Multi-Scale Analysis of the Extreme Precipitation in Southern Brazil in April/May 2024. Atmosphere 2024, 15, 1123.

Rocha RP, Reboita MS, Crespo NM. Análise do evento extremo de precipitação ocorrido no Rio Grande do Sul entre abril e maio de 2024. J Health NPEPS. 2024; 9(1):e12603.

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