Após mais de 100 anos, cientistas descrevem nova espécie viva de felino

Análises genéticas revelaram que pequeno gato encontrado nas florestas bolivianas pertence a uma linhagem própria, separada há 1,4 milhão de anos, e pode estar ameaçado de extinção.

Brasileiro ajuda a identificar nova espécie de gato. Crédito: Paola Nogales-Ascarrunz via PUCRS
Brasileiro ajuda a identificar nova espécie de gato. Crédito: Paola Nogales-Ascarrunz via PUCRS

Um pequeno felino das florestas de Yungas, na Bolívia, foi reconhecido como uma nova espécie após análises de DNA conduzidas por uma equipe internacional com participação brasileira. Batizado cientificamente de Leopardus tilcayo, o animal representa a primeira descrição formal de uma nova espécie viva de felino em mais de um século.

Conhecido pelas comunidades locais como Tigrino, o animal integra o grupo dos gatos-tigres sul-americanos. A pesquisa, publicada na revista científica Current Biology, teve entre seus responsáveis o biólogo evolucionista Eduardo Eizirik, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Os cientistas analisaram o DNA de 38 gatos-tigres de diferentes países, incluindo oito espécimes preservados em museus. Os resultados indicaram que animais anteriormente agrupados em uma mesma classificação correspondem, na realidade, a cinco espécies geneticamente distintas. O estudo também identificou uma nova subespécie no Peru, denominada Leopardus tigrinus antisuyo.

DNA revelou diferenças escondidas pela aparência

A investigação começou porque as características dos felinos encontrados na Bolívia não correspondiam completamente às descrições disponíveis, baseadas principalmente em animais brasileiros. Apesar da semelhança física entre os gatos-tigres, a análise genética revelou histórias evolutivas diferentes.

Segundo os pesquisadores, a linhagem do Leopardus tilcayo está separada das demais há aproximadamente 1,4 milhão de anos. A diferença foi considerada suficiente para seu reconhecimento como espécie independente. Animais desse tipo são chamados de espécies crípticas, pois apresentam aparência semelhante apesar de diferenças genéticas significativas.

O Tigrino mede aproximadamente 46 centímetros e pesa cerca de 1,4 quilo, menos do que um gato doméstico médio. Sua pelagem é marrom-clara e coberta por manchas semelhantes a rosetas. Ainda pouco se sabe sobre seus hábitos, mas registros de câmeras indicam que o animal apresenta maior atividade durante a noite.

Descoberta pode mudar avaliação de conservação

A identificação das diferentes espécies também pode alterar a avaliação do risco de extinção dos gatos-tigres. Atualmente, classificações internacionais agrupam parte desses animais em categorias mais amplas, o que pode esconder diferenças importantes no tamanho, distribuição e situação de cada população.

Nova espécie de gato é identificada na Bolívia. Crédito: Julie Van Collie via PUCRS
Nova espécie de gato é identificada na Bolívia. Crédito: Julie Van Collie via PUCRS

Os pesquisadores encaminharam os novos dados à União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Uma avaliação individual das cinco espécies poderá revelar que algumas enfrentam riscos maiores do que se imaginava. O próprio Leopardus tilcayo poderá receber uma classificação de ameaça quando sua população for analisada separadamente.

A preocupação é reforçada pelas pressões ambientais sobre os Yungas, ecossistema onde a espécie foi identificada. A região enfrenta desmatamento, expansão agrícola, incêndios e mineração. Para os pesquisadores, a descoberta demonstra que mesmo entre grupos relativamente conhecidos, como os felinos, ainda existe biodiversidade a ser descrita. Identificar essas espécies é um passo essencial para desenvolver estratégias adequadas de conservação.

Referência da notícia

SBT News. (2026). Brasileiro ajudou a achar espécie de gato, a 1ª em 100 anos.