Mosquito da malária já está “aprendendo” a sobreviver aos inseticidas, explicam pesquisadores da USP

Estudo recente que teve participação de pesquisadores da USP indica que mosquitos vetores da malária na América do Sul, incluindo o Brasil, estão desenvolvendo resistência genética a inseticidas. Entenda mais aqui.

O mosquito da malária (Anopheles darlingi) vem evoluindo geneticamente para sobreviver às medidas de controle antrópico (por ação humana) impulsionado pelo uso de inseticidas. Foto: Romuald Carinci e Pascal Gaborit/Institut Pasteur de la Guyane.
O mosquito da malária (Anopheles darlingi) vem evoluindo geneticamente para sobreviver às medidas de controle antrópico (por ação humana) impulsionado pelo uso de inseticidas. Foto: Romuald Carinci e Pascal Gaborit/Institut Pasteur de la Guyane.

O Anopheles darlingi é o principal vetor da malária no Brasil e na América do Sul, presente, principalmente, em zonas florestais. Este mosquito, conhecido como "mosquito-prego", transmite o parasita Plasmodium ao picar humanos, sendo mais ativo ao amanhecer e ao entardecer.

E um estudo divulgado recentemente na prestigiada revista científica Science, que teve participação também de pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade de São Paulo (USP), descobriu que esta espécie está se tornando resistente, geneticamente, a inseticidas em vários países do continente sul-americano, incluindo o Brasil.

Entenda mais sobre a pesquisa abaixo.

O que o estudo descobriu

Para o trabalho, que é um dos estudos genômicos mais abrangentes sobre o Anopheles darlingi, os pesquisadores sequenciaram o genoma completo de 1.094 mosquitos fêmeas adultas coletadas em 16 localidades do Brasil, da Guiana Francesa, da Guiana, do Peru, Venezuela e da Colômbia, em ambientes como florestas, áreas úmidas, campos, zonas agrícolas, áreas de mineração e cidades.

Eles encontraram sinais de adaptação genética associados ao uso de inseticidas na agropecuária. Os sinais de seleção foram observados em genes do citocromo P450, que estão entre os principais mecanismos de resistência metabólica do mosquito.

Seleção genética causada por inseticidas no controle do mosquito da malária está, na verdade, aumentando a sobrevivência da espécie.

As variantes genéticas do mosquito estão sendo favorecidas por permitirem que ele sobreviva à exposição a certos grupos de inseticidas. Quando o agente químico entra em contato com o corpo do inseto, certas enzimas agem rapidamente para “quebrar” e neutralizar as moléculas do veneno antes que elas consigam atingir o sistema nervoso e matar o mosquito.

“ (...) Aqueles mosquitos que nascem com essa “armadura” química natural acabam sobrevivendo e gerando descendentes igualmente resistentes, o que torna o controle da doença muito mais complexo”, comentou em entrevista Maria Anice Mureb Sallum, professora do Departamento de Epidemiologia da FSP que coordenou a participação brasileira no estudo.

Para a professora, isso só mostra que o Plano de Eliminação da Malária no Brasil precisa estar apoiado em uma vigilância entomológica cada vez mais qualificada e baseada em evidências locais.

Mas e como fica o uso dos inseticidas na agropecuária? Maria Anice destacou que o objetivo não é o abandono dos inseticidas, mas sim o seu uso estratégico. “O ponto principal é utilizá-los com avaliação permanente da eficácia, para evitar perda de efetividade e fortalecer as metas de eliminação da malária no país”, disse ela.

E esta descoberta surpreendeu os autores do trabalho, pois o fenômeno (resistência a inseticidas) até então havia sido observado apenas de forma esparsa nessa espécie de mosquito. E de acordo com eles, esses resultados têm implicações importantes para medidas de saúde pública e potenciais esforços futuros de direcionamento genético.

Como ocorre na prática essa resistência a inseticidas?

As larvas do Anopheles darlingi se desenvolvem na água. Sendo assim, em regiões agrícolas, essa água pode estar contaminada por inseticidas químicos que escorrem dos campos cultivados ou acumulados em valas de irrigação.

Dessa forma, os mosquitos que sobrevivem a esse ambiente são, por seleção natural, justamente os que carregam genes de resistência. E são eles que se reproduzem e passam essa característica adiante.

Referências da notícia

Population genomics of Anopheles darlingi, the principal South American malaria vector mosquito. 26 de março, 2026. Tennessen, et al.

Mosquito transmissor da malária evolui e dribla resistência a inseticidas. 15 de abril, 2026. Jornal da USP/Redação.

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