Mais açaí, menos tucanos: estudo aponta impactos sobre aves da Amazônia
Estudo revela que o manejo intensivo do açaí reduz a diversidade de aves nas florestas amazônicas e reforça a necessidade de conciliar produção, conservação ambiental e apoio aos produtores.

A crescente demanda nacional e internacional pelo açaí tem impulsionado mudanças no manejo das florestas de várzea da Amazônia e acendido um alerta entre pesquisadores. Um estudo publicado na revista Biological Conservation mostra que áreas com alta densidade de palmeiras de açaí apresentam uma redução de 28% no número de espécies de aves, resultado associado à substituição da vegetação nativa por cultivos mais intensivos.
A pesquisa foi conduzida em 36 áreas de produção nos municípios paraenses de Belém, Barcarena, Abaetetuba e Igarapé-Miri. Durante o monitoramento, cientistas registraram quase 3.600 indivíduos por meio de gravações acústicas realizadas em diferentes horários do dia, identificando alterações significativas na composição da fauna das áreas manejadas.
Segundo os autores, o aumento da produtividade costuma ser acompanhado pela retirada de árvores nativas e da vegetação de sub-bosque para facilitar a colheita e o transporte dos frutos. Esse processo reduz a oferta de alimento, abrigo e locais de reprodução para diversas espécies, comprometendo o equilíbrio ecológico das florestas alagadas.
Manejo intensivo altera o equilíbrio da floresta
Entre as espécies mais afetadas estão aves frugívoras, como o tucano-de-papo-branco, que depende de árvores de grande porte para construir ninhos, além de aves insetívoras que vivem próximas ao solo da floresta. Algumas espécies maiores, como o mutum-cavalo, já não são encontradas nas áreas analisadas.

Por outro lado, espécies mais adaptáveis aos ambientes modificados, como o bem-te-vi, tornam-se mais frequentes. Para os pesquisadores, esse fenômeno representa uma "homogeneização biótica", em que poucas espécies resistentes passam a dominar áreas antes caracterizadas por elevada diversidade.
Além da perda de aves, os cientistas alertam para impactos em cadeia. A redução de dispersores de sementes e polinizadores compromete a regeneração natural da floresta, enquanto a diminuição da cobertura vegetal favorece o ressecamento do solo e enfraquece a resiliência desses ecossistemas.
Crescimento do mercado de açaí amplia desafios
A produção brasileira de açaí aumentou expressivamente nas últimas décadas, alcançando cerca de 1,9 milhão de toneladas em 2024. O Pará concentra aproximadamente 95% dessa produção e também lidera as exportações, impulsionadas principalmente pelos mercados dos Estados Unidos, Europa, Japão e Austrália.
Embora exista regulamentação que limita a quantidade de touceiras por hectare em áreas ribeirinhas, pesquisadores afirmam que o cumprimento das normas ainda enfrenta dificuldades. O incentivo econômico leva muitos produtores a intensificar os plantios, frequentemente reduzindo a diversidade de espécies vegetais das florestas de várzea.
Especialistas defendem que o fortalecimento da bioeconomia amazônica depende da adoção de práticas sustentáveis capazes de equilibrar conservação ambiental e geração de renda. A diversificação dos sistemas produtivos, com espécies como cacau e andiroba, aliada à assistência técnica, fiscalização e incentivos financeiros, é apontada como caminho para preservar a biodiversidade sem comprometer o desenvolvimento econômico das comunidades locais. Segundo os pesquisadores, manter a floresta em pé continua sendo o maior patrimônio para o futuro da cadeia produtiva do açaí.
Referência da notícia
Mongabay. (2026). Como sua tigela de açaí pode estar deixando os tucanos sem floresta.