Fatos, fakes e desinformação: tudo o que você precisa saber sobre o “Super El Niño”
Existe mesmo um “Super” El Niño? A origem dele foi um terremoto no Japão? E o ONI, alcançou mesmo 3,1°C? E os modelos, "projetam" ou “preveem” uma intensificação do fenômeno até o verão? Vamos desvendar os termos que vêm causando confusão - até mesmo entre os profissionais.

Desde meados de abril de 2026 a pauta do “Super El Niño” tomou conta da mídia e das redes sociais. Nesta época, os modelos climáticos começaram a indicar o desenvolvimento de um fenômeno muito forte, com possibilidade de se tornar o evento mais intenso da história dos registros.
Você sabia que o termo “Super” El Niño não existe na ciência? Que um terremoto no Japão não é capaz de gerar o aquecimento que estamos observando no Oceano Pacífico? E, afinal, qual é a real intensidade atual do fenômeno, existe um ONI semanal? A seguir, tudo o que você precisa saber para combater a desinformação.
O Super El Niño não existe?
Não, cientificamente não existe uma categoria de “super” El Niño. O fenômeno El Niño é classificado de acordo com as anomalias de temperatura da superfície do mar (TSM) na região de monitoramento denominada Niño 3.4, no Oceano Pacífico equatorial central:
- Fraco: +0,5 °C ≤ anomalia trimetral < +1,0 °C
- Moderado: +1,0 °C ≤ RONI < +1,5 °C
- Forte: +1,5 °C ≤ anomalia trimetral < +2,0 °C
- Muito forte: anomalia trimetral ≥ +2,0 °C
Ou seja, o que vem sendo convencionado como “Super El Niño” é, na verdade, um evento “muito forte”. A mesma classificação vale para La Niña, mas com os limiares negativos.
O El Niño foi causado por um terremoto no Japão?
Não, o El Niño-Oscilação Sul (ENSO) é um fenômeno natural de variabilidade climática e cíclico que resulta da interação entre o oceano e a atmosfera no Pacífico tropical. Ele apresenta diferentes fases que se intercalam, sendo o El Niño a fase quente, a La Niña a fase fria e uma condição neutra.

Sua evolução envolve mudanças nos ventos alísios, na circulação atmosférica, na temperatura da superfície do mar e na distribuição do calor armazenado no oceano.
Terremotos submarinos podem provocar perturbações importantes no oceano, como tsunamis, por exemplo, mas não são o mecanismo responsável pela formação de um evento de El Niño. Os modelos já indicavam um cenário de El Niño antes mesmo do terremoto.
Qual a diferença entre "previsão" e "projeção"?
Os termos “previsão” e “projeção” não são sinônimos em meteorologia. Na ciência, alguns termos estão reservados para um conceito específico e, neste caso:
- Previsão: é uma estimativa das condições climáticas futuras baseadas no estado atual do sistema e em sua evolução esperada
- Projeção: é uma estimativa condicionada a determinados cenários futuros, como diferentes trajetórias de emissões e concentrações de gases de efeito estufa - como nas simulações do clima para o final do século, reportadas pelo IPCC.
Portanto, quando falamos sobre a evolução do El Niño estamos falando de previsões, e não projeções.
E o “ONI da semana passada”?
Outra confusão que vem ganhando espaço em muitos sites é sobre a intensidade do El Niño. Até fevereiro de 2026, o índice o ONI (Oceanic Niño Index) era amplamente utilizado para classificar o ENOS, mas ele foi substituído pelo índice relativo RONI (Relative Oceanic Niño Index).

Enquanto o ONI utiliza as anomalias absolutas (diferença entre a TSM média na região e sua climatologia) o RONI utiliza anomalias relativas, ou seja, além da diferença em relação à climatologia, ele também desconta o aquecimento médio dos oceanos tropicais, buscando isolar o sinal do El Niño do aquecimento global de fundo.
Recentemente, muitos portais vêm associando anomalias absolutas de TSM com o ONI em afirmações como “o ONI alcançou 3,1°C na última semana”. Esse tipo de afirmaç��o não faz sentido cientificamente, uma vez que o ONI é uma média de três meses, e não semanal. O que alcançou 3,1°C na última semana foi a anomalia absoluta de TSM, e não o ONI. O útlimo ONI (junho-julho-agosto) foi de 1,8°C, e será atualizado em breve (julho-agosto-setembro).
Essa diferença importa, especialmente quando queremos caracterizar a intensidade de um El Niño e compará-lo com eventos históricos. Embora seja interessante acompanhar a evolução do ENSO “em tempo real” (anomalias diárias ou semanais), mas a intensidade final do fenômeno é dada pela média móvel de 3 meses (RONI ou ONI).
A importância de combater a desinformação
O Relatório de Riscos Globais 2026, elaborado pelo Fórum Econômico Mundial, aponta a desinformação e a disseminação de notícias falsas entre os 4 principais riscos globais dos próximos 10 anos.
Combater a desinformação não significa apenas identificar o que é falso. Significa também impedir que uma informação verdadeira seja transformada em algo que ela não é. E, na ciência, isso começa por uma coisa aparentemente simples: usar cada termo para aquilo que ele realmente significa.
Ter acesso a informações científicas de qualidade é fundamental para que a população compreenda os riscos associados aos fenômenos meteorológicos e à crise climática, participe de forma consciente das discussões e possa cobrar de seus governantes medidas efetivas para enfrentá-la. Para isso, a ciência precisa ser não apenas comunicada com clareza, mas também com rigor.