Experimento internacional investigará impacto do aumento de CO₂ na Amazônia
Projeto AmazonFace acompanhará durante dez anos áreas preservadas da floresta amazônica para compreender como o aumento do dióxido de carbono pode alterar crescimento, biodiversidade, nutrientes e dinâmica ecológica.

A maior floresta tropical do planeta será palco de um experimento científico sem precedentes. O programa AmazonFace iniciará a fase principal de uma pesquisa internacional que pretende revelar como a Amazônia reage a uma atmosfera com concentração de dióxido de carbono (CO₂) 50% superior aos níveis atuais. O estudo acompanhará, ao longo de uma década, seis parcelas de floresta preservada na reserva ZF2, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), localizada a cerca de 70 quilômetros de Manaus.
A iniciativa busca responder a uma questão central para o futuro do clima global: de que forma o aumento do principal gás responsável pelo aquecimento do planeta afetará o funcionamento da floresta amazônica. O CO₂ é um dos elementos fundamentais da fotossíntese, processo pelo qual as plantas produzem energia para crescer e sobreviver.
Os testes finais da estrutura experimental começam em junho, e as medições contínuas devem ser iniciadas em agosto. A expectativa dos pesquisadores é que os resultados ajudem a compreender se a floresta poderá absorver mais carbono da atmosfera ou se enfrentará limitações impostas pela disponibilidade de nutrientes e pelas mudanças climáticas.
Tecnologia inédita em floresta tropical
O AmazonFace utiliza a tecnologia conhecida como Free-Air CO₂ Enrichment (Face), criada nos Estados Unidos na década de 1990. Embora já tenha sido aplicada em diferentes tipos de vegetação de regiões temperadas, esta será a primeira vez que o método será empregado em uma floresta tropical.
As outras três parcelas funcionarão como grupo de controle, mantendo os níveis atuais de dióxido de carbono. Como os anéis estão instalados em ambientes praticamente idênticos e separados por apenas 90 metros, os cientistas poderão comparar diretamente os efeitos do aumento do CO₂ sobre a vegetação.
Monitoramento detalhado da floresta
O experimento reúne uma ampla rede de equipamentos capazes de registrar temperatura, direção dos ventos, concentração de gases atmosféricos, atividade fotossintética das folhas, dinâmica das raízes e disponibilidade de nutrientes no solo.

Dentro de cada parcela existem entre 50 e 70 árvores adultas, além de vegetação de menor porte. Ao todo, os seis anéis abrigam cerca de 400 espécies vegetais diferentes, refletindo a extraordinária biodiversidade amazônica.
Segundo os pesquisadores, uma das principais metas é identificar quais espécies serão favorecidas e quais poderão enfrentar dificuldades em um ambiente mais rico em CO₂. O acompanhamento da biomassa também permitirá verificar se as árvores aumentarão seu crescimento e sua capacidade de armazenar carbono.
Primeiros resultados e investimento milionário
Estudos preliminares realizados entre 2019 e 2022 em câmaras experimentais menores já indicaram mudanças importantes. Pesquisadores observaram que plantas do sub-bosque desenvolveram raízes mais eficientes na absorção de fósforo, nutriente considerado limitante para o crescimento vegetal na Amazônia.
Os resultados sugerem que a vegetação pode adaptar suas estratégias para aproveitar melhor os recursos disponíveis quando exposta a concentrações elevadas de dióxido de carbono. No entanto, os cientistas destacam que ainda não é possível prever os efeitos sobre todo o ecossistema amazônico.
Até o momento, o AmazonFace recebeu investimentos de aproximadamente R$ 80 milhões, provenientes de instituições brasileiras e do serviço meteorológico do Reino Unido. O custo total previsto para os próximos dez anos é de R$ 260 milhões, com recursos já garantidos para os cinco primeiros anos de operação.
Referências da notícia
Revista Fapesp. Experimento internacional vai estudar como a Amazônia reage a ambiente rico em dióxido de carbono. 2026