Dançar, desenhar ou jogar videogame deixa o cérebro mais jovem, mostra estudo internacional

Pesquisa com participantes de 13 países indica que dançar, tocar instrumentos, pintar ou jogar videogame fortalece conexões neurais, retarda o envelhecimento cerebral e pode integrar políticas públicas de saúde.

Idosos gostaram da arte e resolveram pintar a parede em São Carlos — Foto: Wilson Aiello/EPTV
Idosos gostaram da arte e resolveram pintar a parede em São Carlos. Crédito: Wilson Aiello/EPTV

Dançar, tocar instrumentos, pintar, cantar ou até jogar videogame pode ser mais do que lazer. Um estudo internacional publicado na revista científica Nature Communications aponta que atividades criativas ajudam o cérebro a envelhecer de forma mais lenta e saudável.

A pesquisa analisou dados cerebrais de mais de 1.400 participantes, distribuídos em 13 países, e identificou diferenças significativas entre pessoas que mantêm práticas criativas regulares e aquelas que não cultivam esse tipo de hábito.

Os resultados mostram que indivíduos criativos apresentam cérebros biologicamente mais jovens do que sua idade cronológica. O trabalho contou com a participação do neurologista Renato Anghinah, professor da Universidade de São Paulo (USP).

Criatividade e envelhecimento cerebral

Segundo Anghinah, o estudo não indica um “rejuvenescimento” do cérebro, mas sim um processo de envelhecimento mais lento. “O cérebro dessas pessoas mantém a capacidade de resposta e de criação por mais tempo”, explica o pesquisador.

Leitura e jogos ajudam a estimular a memória dos idosos Foto: Robert Kneschke | ShutterStock / Portal EdiCase https://www.terra.com.br/vida-e-estilo/saude/descubra-como-funciona-a-memoria-e-formas-de-exercita-la,8aa0a159ab1c795b7a16687564c5ea00h6ksg97e.html?utm_source=clipboard
Leitura e jogos ajudam a estimular a memória dos idosos. Crédito: Robert Kneschke | ShutterStock / Portal EdiCase

Para chegar a essa conclusão, os cientistas utilizaram modelos computacionais chamados brain clocks (“relógios cerebrais”), capazes de estimar a idade biológica do cérebro a partir de imagens e padrões neurais.

A comparação envolveu dançarinos, músicos, artistas visuais, jogadores de videogame e um grupo de controle formado por pessoas que não praticavam atividades criativas. A diferença entre os grupos foi consistente em todos os países analisados.

O que os dados revelaram

Os participantes engajados regularmente em práticas criativas apresentaram conexões neurais mais eficientes e cérebros considerados mais jovens pelos modelos computacionais. Já o grupo de não praticantes mostrou o padrão esperado de envelhecimento cerebral.

Um terceiro grupo, formado por aprendizes que haviam iniciado recentemente alguma atividade criativa, apresentou resultados intermediários. Isso indica que os benefícios começam a surgir mesmo após poucas semanas de prática.

Entre todas as atividades avaliadas, a dança — especialmente o tango — apresentou os efeitos mais expressivos. Em alguns casos, o cérebro dos dançarinos parecia até sete anos mais jovem do que a idade real.

Por que a dança se destaca

De acordo com Anghinah, a dança ativa diversas áreas cerebrais simultaneamente. “Ela exige coordenação motora, planejamento, resposta rápida, música e improviso. Isso faz o cérebro criar mais conexões e manter essas redes ativas”, afirma.

Essa combinação de estímulos físicos, cognitivos e emocionais torna a dança uma das atividades mais completas para a saúde cerebral, segundo os autores do estudo.

Os pesquisadores ressaltam, porém, que não existe uma única prática ideal. O fator mais importante é o envolvimento constante em atividades que desafiem o cérebro de forma prazerosa.

Criatividade como política de saúde

O estudo também reforça a ideia de que a criatividade deve ser encarada como um fator de saúde pública. Para Anghinah, artes e atividades criativas precisam ter o mesmo peso que exercícios físicos e alimentação adequada.

Ele defende que escolas públicas e privadas mantenham disciplinas como música, teatro e artes visuais como componentes centrais do currículo, e não como atividades secundárias.

Mesmo quem começa tarde pode se beneficiar. O estudo mostra que iniciar uma atividade criativa após os 50 ou 60 anos ainda gera ganhos mensuráveis, graças à neuroplasticidade, que permanece ativa ao longo da vida.

Um novo olhar sobre o envelhecimento

Os autores acreditam que, no futuro, a criatividade poderá ser prescrita como ferramenta preventiva contra o declínio cognitivo. “O envelhecimento cerebral é resultado de vários fatores, e agora sabemos que a criatividade é um protetor importante”, resume Anghinah.

O próprio pesquisador conta que voltou a cantar e a retomar antigos hobbies após participar do estudo. “Até o pesquisador sai transformado”, brinca, reforçando que nunca é tarde para exercitar a mente de forma criativa.

Referências da notícia

G1. Atividades criativas ajudam o cérebro a envelhecer mais lentamente, mostra estudo internacional. 2025