Criam o tecido mais escuro do mundo, inspirado em um pássaro exótico: este é o "ultrapreto".
Pesquisadores nos Estados Unidos criaram um material que absorve quase toda a luz usando uma técnica inspirada na ave-do-paraíso. Essa inovação promete transformar tudo, desde a indústria têxtil até a eficiência dos painéis solares.

Existem muitos tons de preto. Preto absoluto, preto breu, preto carvão. Mas o ultrapreto está em uma categoria própria: é tão escuro que reflete menos de 0,5% da luz que recebe. Na prática, a luz entra... e não retorna.
Esse nível de escuridão é crucial para câmeras, telescópios, sensores ópticos e painéis solares, onde qualquer reflexo é um incômodo. O problema é que esses materiais costumam ser caros, difíceis de fabricar e bastante sensíveis: vistos de lado, eles já não parecem tão pretos.
Agora, uma equipe da Universidade Cornell encontrou uma solução inesperada e elegante: observar um pássaro.
O modelo natural: a ave-do-paraíso
Nas profundezas das florestas tropicais da Nova Guiné e da Austrália vive o magnífico fusilier (Lophorina magnifica), uma ave que leva a elegância a um nível físico extremo. Para atrair as fêmeas, o macho exibe uma plumagem tão preta que se assemelha a um buraco no espaço. Não é apenas cor; é uma armadilha arquitetônica para fótons.
Essas estruturas são compostas por minúsculos espinhos e ganchos que aprisionam a luz, impedindo sua reflexão. O resultado é um preto tão profundo que faz com que as cores adjacentes pareçam mais brilhantes e as formas tridimensionais se achatem visualmente — um efeito que os machos utilizam em seus complexos rituais de acasalamento.
Cornell Üniversitesi, cennet kuşu familyasından magnificent riflebird kuşunun tüylerinden ilham alarak en siyah kumaşı geliştirdi.
— 𝔸𝕥𝕝𝕖𝕥𝕚𝕫𝕞𝕤𝕖𝕧𝕖𝕣 (@Atletizmsever) December 8, 2025
Ultrablack kumaş %0,13 yansıtıcılığa sahip. Ultrablack sayılmak için sınır değer %0,5.
Ekip, materyal için geçici patent başvurusu da yaptı. pic.twitter.com/YNXv1foo9L
Inspirada nessa estrutura natural, uma equipe multidisciplinar criou um tecido sintético que supera a capacidade de absorção de luz da própria ave. O material, desenvolvido com técnicas de nanoengenharia, é composto por milhões de nanotubos de carbono verticais, mais finos que o comprimento de onda da luz visível.
Quando a luz incide sobre esta superfície, fica aprisionada na "floresta" de nanotubos, ricocheteando entre eles até se dissipar completamente em forma de calor. O resultado é uma absorção de 99,7% da luz visível, uma percentagem ligeiramente superior à do Vantablack (99,65%), anteriormente considerado o material mais escuro.
Aplicações potenciais além da estética
Embora a primeira aplicação que venha à mente seja artística ou na moda de alta tecnologia, os usos práticos desse "ultrapreto" são consideráveis:
- Astronomia e óptica avançada: em telescópios e satélites, poderia eliminar quase completamente a luz dispersa que interfere nas observações do espaço profundo.
- Energia solar: Poderia ser utilizada em painéis solares para maximizar a absorção de luz, melhorando sua eficiência.
- Camuflagem militar: em operações noturnas, reduziria significativamente a detecção visual e térmica.
- Arte e arquitetura: artistas como Anish Kapoor já trabalharam com materiais ultranegros para criar ilusões de ótica onde formas tridimensionais parecem bidimensionais.
Mesmo no mundo da arte e do design, houve experiências bem-sucedidas. A estudante Zoe Alvarez criou um vestido que incorporava esse material como peça central. Ao tentar editar as fotos da peça, o resultado foi surpreendente: enquanto todo o entorno mudava em brilho e contraste, o fragmento ultranegro permanecia inalterado, como um vazio absoluto no meio da imagem.
Ao contrário das versões anteriores de materiais ultranegros, que exigiam processos de fabricação complexos e dispendiosos, este novo tecido pode ser produzido em larga escala utilizando métodos têxteis convencionais adaptados. Os pesquisadores estão explorando como aplicar o revestimento de nanotubos a diferentes tipos de fibras, o que poderia torná-lo mais acessível a diversas indústrias.
O desenvolvimento deste material também levanta questões interessantes. No mundo da arte, houve controvérsias em torno da exclusividade de certas cores (como quando Anish Kapoor obteve os direitos exclusivos do Vantablack). Os criadores deste novo tecido ultrapreto expressaram a intenção de disponibilizá-lo para uma ampla gama de aplicações, embora provavelmente com restrições para uso militar.
Este avanço demonstra como a biomimética — a ciência que imita a natureza — continua a fornecer soluções inovadoras para os desafios tecnológicos.
Referência da notícia
Hansadi Jayamaha, Kyuin Park, Larissa M. Shepherd. Ultrablack wool textiles inspired by hierarchical avian structure, Nature