CO2​ pode inibir formação de nuvens

O aumento da concentração de CO2 na atmosfera até um nível crítico pode inibir a formação de nuvens stratus. Estas nuvens são responsáveis por refletir parte da radiação solar que chega na Terra e sua diminuição ou ausência poderia gerar um pico de aquecimento no planeta.

Carolina Barnez Carolina Barnez 07 Mar. 2019 - 12:29 UTC
Concentrações de CO2 acima de um nível crítico podem inibir a formação ou promover a dissipação de nuvens stratus.

O efeito do aumento das concentrações de gás carbônico (CO2) na atmosfera pode ser ainda mais complexo do que imaginávamos. Um estudo publicado recentemente na Nature Geoscience mostrou que se a quantidade de CO2 ultrapassar um certo limite, poderemos não ter mais a formação de nuvens stratus (ou estratos) na atmosfera. O problema é que a diminuição ou total ausência desse tipo de nuvem aceleraria ainda mais o aumento da temperatura média da superfície da terra.

Nesse caso, o CO2 em excesso não atuaria apenas como um gás do efeito estufa, retendo o calor na atmosfera, mas também prejudicaria a formação de nuvens que contribuem para o resfriamento do planeta. O artigo mostrou que em concentrações de CO2 altas o suficiente, as nuvens stratus marinhas se tornam instáveis e tendem a se dissipar. As nuvens stratus cobrem cerca de 20% dos oceanos subtropicais e são típicas das porções lestes desses oceanos – costa oeste da África do Sul, Peru e Califórnia. Por serem mais claras (mais brancas) e densas, refletem a luz solar, funcionando como um bloqueio. Sem elas uma parcela significativa da energia radiativa do sol que é refletida de volta ao espaço seria absorvida pela superfície da Terra e reemitida como onda longa, contribuindo para um eventual aquecimento.

Nuvens stratus refletem parte da radição solar de volta para o espaço. Créditos: Wikimedia Commons.

Segundo o estudo, essa situação ocorreria se atingirmos concentrações de CO2 acima de 1200 partes por milhão (ppm) e resultaria em uma Terra 8°C mais quente. Hoje, a concentração de CO2 bate os 410 ppm e com as atuais projeções, se nenhuma medida for tomada, chegaremos a 1200 ppm no próximo século. Tapio Schneider, um dos autores do trabalho, fala que o valor encontrado é apenas uma estimativa mas considera que o mais importante é detectarmos e entendermos cada vez melhor a existência de limites perigosos das mudanças climáticas que ainda não conhecemos.

Entendendo o papel das nuvens no clima

O artigo em questão também contribuiu para uma possível solução de um mistério da paleoclimatologia. Os cientistas não conseguiam explicar como a Terra havia ficado tão quente no Eoceno (cerca de 50 milhões de anos atrás), quando registros geológicos indicam que o Ártico não tinha nenhum gelo e era habitado por crocodilos. Pensando apenas no efeito "aquecedor" do CO2, seria necessária uma concentração de 4000 ppm para alcançar um temperatura que permitisse tal cenário. No entanto, a perda da cobertura de nuvens stratus poderia causar um pico de temperatura sem que a concentração de CO2 chegasse a tal extremo.

“Esse trabalho evidencia um ponto cego nos estudos climáticos” diz Schneider, se referindo a deficiência dos modelos climáticos atuais em representar de forma correta as nuvens. A maior parte dos estudos de projeções climáticas são feitos com modelos numéricos que não tem resolução suficiente para simular os processos de formação e dissipação de nuvens. Para driblar essa limitação Schneider e seus colegas criaram um modelo com uma escala mais refinada sobre os oceanos subtropicais, capaz de simular as nuvens e o movimento turbulento responsáveis por suas formações.

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