Chimpanzés entram em “guerra civil” inédita em Uganda após ruptura de grupo e intrigam cientistas
Estudo revela ruptura social rara entre chimpanzés em Uganda, com divisão permanente, violência letal crescente e causas ainda incertas, levantando novas questões sobre comportamento, cooperação e conflitos em primatas.

Um conflito incomum entre chimpanzés no Parque Nacional de Kibale, em Uganda, tem intrigado cientistas e chamado atenção da comunidade científica internacional. O episódio envolve cerca de 200 indivíduos que, após décadas vivendo em harmonia, se dividiram em dois grupos rivais e passaram a protagonizar confrontos violentos.
Descrito por pesquisadores como uma espécie de “guerra civil”, o fenômeno é considerado inédito entre chimpanzés da espécie Pan troglodytes. O estudo, conduzido por especialistas da Universidade do Texas e publicado na revista Science, analisa uma das maiores comunidades já observadas em estado selvagem.
Monitorados há aproximadamente 30 anos, os chimpanzés de Ngogo apresentaram sinais graduais de tensão social. Inicialmente coeso, o grupo começou a formar subgrupos com laços mais fortes entre determinados indivíduos, indicando uma fragmentação progressiva.
Da coesão à ruptura violenta
Por volta de 2015, a comunidade se dividiu em dois grupos distintos, embora ainda mantivesse algum nível de cooperação e interação. A ruptura definitiva ocorreu em 2018, quando os vínculos sociais se romperam completamente e as agressões começaram.

Cada facção passou a ocupar territórios diferentes, conhecidos como região central e ocidental, e deixou de interagir pacificamente. A partir daí, a violência escalou rapidamente, com ataques coordenados entre os grupos.
Segundo o pesquisador Aaron Sandel, os confrontos envolvem comportamentos extremamente agressivos, como mordidas, socos e chutes. “Machos adultos participam principalmente, mas às vezes fêmeas também se juntam aos ataques”, relatou. As investidas podem durar cerca de 15 minutos e frequentemente resultam em mortes.
Possíveis causas e dinâmica social
Embora ataques entre grupos desconhecidos de chimpanzés já tenham sido documentados, o que torna este caso singular é o fato de a violência ocorrer entre indivíduos que antes conviviam de forma pacífica. Isso levanta novas questões sobre a complexidade social da espécie.
Um elemento crucial foi a morte de indivíduos que funcionavam como “pontes sociais” entre os subgrupos. Sem esses mediadores, os laços enfraqueceram até se tornarem irreversíveis, consolidando a divisão permanente.
Violência persistente e implicações científicas
Até 2024, ao menos 24 mortes foram registradas, com novos casos observados em 2025, indicando que o conflito continua ativo e possivelmente mais amplo do que o documentado. Patrulhas territoriais se tornaram frequentes, e os ataques passaram a atingir não apenas machos adultos, mas também filhotes.
Este é apenas o segundo caso documentado de cisão permanente em chimpanzés selvagens em cerca de 50 anos. O primeiro foi observado na década de 1970, na Tanzânia, pela primatóloga Jane Goodall, embora com registros mais limitados.
Apesar do uso do termo “guerra civil” ajudar a ilustrar a gravidade do fenômeno, pesquisadores alertam para a necessidade de cautela ao comparar esses eventos com conflitos humanos. Eles destacam que outras espécies próximas, como os bonobos, apresentam comportamentos mais tolerantes e evitam confrontos letais.
Além disso, o estudo reforça o papel fundamental das fêmeas na dinâmica social. Embora menos visíveis nos confrontos, elas influenciam decisões sobre território, alimentação e reprodução, sendo essenciais para compreender a complexidade desses conflitos em nível grupal.
Referências da notícia
CNN Brasil. Comunidades de chimpanzé entram em "Guerra Civil" após divisão permanente. 2026
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