Macaco da Amazônia usa engenhosa estratégia para sobreviver

Pesquisa revela como macaco amazônico ameaçado usa dentes extremamente fortes e estratégia precisa para quebrar frutos duros, evitar fraturas e acessar alimentos inacessíveis a outros animais da floresta tropical brasileira.

A floresta amazônica abriga uma espécie de primata com uma estratégia singular de sobrevivência. Crédito: Paulo Amorim/Getty Images
A floresta amazônica abriga uma espécie de primata com uma estratégia singular de sobrevivência. Crédito: Paulo Amorim/Getty Images

A vida na floresta tropical amazônica pode parecer abundante à primeira vista, mas está longe de ser fácil. Entre flores, fungos e frutos de cores vibrantes, a sobrevivência exige adaptações sofisticadas e escolhas precisas. Cada refeição envolve riscos e decisões que podem definir a vida ou a morte de um animal.

Foi nesse cenário que o ecólogo comportamental Adrian Barnett, da Universidade de Greenwich, desenvolveu um estudo sobre o cuxiú-de-nariz-vermelho (Chiropotes albinasus), espécie ameaçada de extinção que habita a Amazônia central. A pesquisa foi publicada na plataforma The Conversation Brasil.

Durante o trabalho de campo, Barnett coletou restos de frutos consumidos pelos macacos às margens do rio Tapajós. O objetivo era entender como esses primatas conseguem explorar um tipo de alimento praticamente inacessível para a maioria dos outros animais da floresta.

Um primata único no mundo

Os cuxiús são macacos do tamanho de gatos domésticos, mas com uma característica impressionante: caninos maiores que os dentes humanos, apesar de terem um crânio do tamanho de uma laranja. Diferentemente de outros primatas, que usam dentes grandes apenas para exibição, os cuxiús dependem deles para se alimentar.

Animais do tamanho de gatos, os cuxiús têm caninos maiores do que os dentes humanos, que usam para abrir sementes e nozes duras. Crédito: Divulgação/Mongabay
Animais do tamanho de gatos, os cuxiús têm caninos maiores do que os dentes humanos, que usam para abrir sementes e nozes duras. Crédito: Divulgação/Mongabay

Esses macacos consomem frutos extremamente duros, muitos aparentados à castanha-do-pará, à acácia e ao oleandro. Para um ser humano, abrir esses frutos exigiria ferramentas como martelos. Já os cuxiús resolvem o problema com uma única mordida poderosa.

As mandíbulas são impulsionadas por músculos robustos, capazes de gerar uma força comparável, proporcionalmente, à mordida de uma onça-pintada. Ao longo da vida, um único cuxiú pode quebrar dezenas de milhares de frutos resistentes como pedra.

A sutileza por trás da força

A grande questão para os cientistas sempre foi como esses macacos evitam quebrar os próprios dentes. Sem acesso a cuidados veterinários, uma fratura dentária poderia levar rapidamente à morte por inanição.

O estudo revelou que os cuxiús utilizam uma estratégia surpreendentemente precisa. Eles mordem preferencialmente a sutura do fruto — uma linha natural na casca por onde ela se abriria ao amadurecer — que é até 70% menos resistente do que o restante da superfície.

Análises de crânios no Museu de História Natural de Londres mostraram que fraturas dentárias não são mais comuns nos cuxiús do que em outros primatas com dietas diferentes. Isso indica que a técnica é eficaz e reduz o desgaste ao longo do tempo.

Atletismo extremo na copa das árvores

Essa combinação de força e inteligência permite que os cuxiús explorem sementes verdes, uma fonte de alimento pouco disputada. A estratégia lembra a de grandes felinos, que atacam presas em pontos vulneráveis para proteger os próprios dentes.

Viver no alto da copa das árvores, deslocando-se rapidamente por longas distâncias, transforma esses macacos em verdadeiros atletas de esportes radicais. Segundo Barnett, eles ultrapassam constantemente os limites do que se imagina possível para um primata.

Apesar dessas habilidades extraordinárias, os cuxiús enfrentam um adversário imbatível: a ação humana. O desmatamento avança em um ritmo para o qual nem milhões de anos de evolução foram capazes de prepará-los, colocando em risco um dos exemplos mais engenhosos de sobrevivência da Amazônia.

Referências da notícia

Metrópoles. Macaco da Amazônia usa engenhosa estratégia para sobreviver. 2026