Biodiversidade invisível: o colapso silencioso dos insetos no Brasil

Estudo revela declínios consistentes em populações de insetos terrestres no Brasil, aponta lacunas de monitoramento e alerta para impactos ecológicos amplos, incluindo polinização, cadeias alimentares e funcionamento dos ecossistemas naturais.

Estudo aponta redução no número de insetos terrestres. Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil
Estudo aponta redução no número de insetos terrestres. Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil

O desaparecimento de insetos, muitas vezes ignorado por ocorrer longe dos olhos, já é uma realidade documentada no Brasil. Um estudo publicado na Royal Society reúne dados dispersos e evidencia uma tendência preocupante: a queda na abundância e diversidade de insetos, especialmente em ambientes terrestres.

A pesquisa analisou 75 registros de tendências populacionais ao longo de décadas, combinando estudos científicos e relatos de especialistas. O resultado mostra que, para insetos terrestres como abelhas, borboletas e besouros, os casos de declínio superam amplamente os de aumento, tanto em número de indivíduos quanto em diversidade de espécies.

Embora os dados ainda sejam escassos e fragmentados, o padrão observado é consistente: há mais evidências de perda do que de estabilidade. Esse cenário, segundo os autores, pode indicar um colapso silencioso em andamento: difícil de medir, mas ecologicamente significativo.

Quedas silenciosas e dados incompletos

Um dos principais desafios apontados pelo estudo é a falta de monitoramento sistemático no país. Biomas como a Amazônia e a Mata Atlântica concentram a maior parte dos dados, enquanto regiões como o Pantanal e a Caatinga permanecem praticamente sem informações.

Insetos desempenham funções essenciais no meio ambiente, como a polinização. Crédito: Roger Villanueva
Insetos desempenham funções essenciais no meio ambiente, como a polinização. Crédito: Roger Villanueva

Além disso, muitos estudos têm duração limitada ou metodologias diferentes, o que dificulta comparações amplas. Ainda assim, quando os dados são analisados em conjunto, surge um sinal claro de alerta: insetos terrestres apresentam mais quedas do que aumentos populacionais, com proporções significativamente desiguais.

Nos ambientes aquáticos, por outro lado, não foi detectada uma tendência consistente de declínio. Os pesquisadores sugerem que isso pode ocorrer porque muitos desses ecossistemas já estavam degradados antes do início das medições ou porque os estudos são mais curtos.

Impactos além do invisível

Insetos desempenham funções essenciais nos ecossistemas. São polinizadores, decompositores e base alimentar para diversas espécies. A redução dessas populações pode desencadear efeitos em cascata, afetando plantas, aves, mamíferos e até a produção agrícola.

O estudo destaca que, mesmo quando a diversidade total parece estável, há mudanças importantes na composição das espécies, algumas desaparecem localmente enquanto outras ocupam seu lugar. Essas alterações podem comprometer funções ecológicas específicas, como a polinização de determinadas plantas.

Casos pontuais já ilustram esse fenômeno. Em áreas urbanas e fragmentos florestais, espécies antes comuns deixaram de ser observadas ao longo das últimas décadas. Em alguns casos, ocorreram extinções locais de abelhas e mudanças profundas na composição de comunidades de insetos.

Um alerta para o futuro

Os autores reforçam que o Brasil ainda carece de séries históricas robustas para avaliar a magnitude real do problema. Sem monitoramento contínuo, o risco é que o colapso avance sem ser plenamente percebido.

A recomendação é clara: ampliar programas de longo prazo, revisitar áreas estudadas no passado e integrar diferentes fontes de dados, incluindo coleções científicas e conhecimento de especialistas.

Mais do que uma questão científica, o declínio dos insetos é um sinal de desequilíbrio ambiental. Invisível para muitos, esse processo pode ter consequências profundas — e, se não for compreendido a tempo, difíceis de reverter.

Referências da notícia

Biology Letters. Insect decline in Brazil: an appraisal of current evidence. 2022

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